Recentemente li uma notícia que referia que a cobertura arbórea recomendada para uma cidade deveria atingir os 30% da sua área, sendo que Lisboa apresenta atualmente apenas cerca de 16,8%. Independentemente dos números exatos ou das metodologias utilizadas para os calcular, a notícia levou-me a refletir sobre uma questão cada vez mais relevante: qual é o papel das árvores nas cidades do século XXI?
Durante muitos anos, a presença de árvores em meio urbano foi encarada sobretudo como um elemento estético ou paisagístico. Hoje sabemos que o seu contributo vai muito além da beleza dos espaços públicos. As árvores são uma verdadeira infraestrutura verde, com impacto direto na qualidade de vida das populações.
Num contexto de alterações climáticas, as cidades enfrentam desafios crescentes relacionados com ondas de calor, períodos de seca, fenómenos de precipitação intensa e degradação da qualidade do ar. As árvores ajudam a mitigar muitos destes problemas. Proporcionam sombra, reduzem a temperatura ambiente, promovem a infiltração da água da chuva, capturam dióxido de carbono e contribuem para a melhoria da qualidade do ar.
Quem já atravessou uma praça totalmente pavimentada num dia de verão e, logo de seguida, caminhou por uma avenida arborizada, percebe intuitivamente a diferença. A sensação térmica pode variar vários graus apenas pela presença de vegetação. À medida que as cidades se tornam mais densas e impermeabilizadas, este efeito torna-se cada vez mais importante.
Mas talvez a reflexão mais interessante seja outra. Quando falamos de cobertura arbórea, não estamos apenas a falar de ambiente. Estamos a falar de saúde pública, conforto urbano, adaptação climática, planeamento territorial e até de justiça social. As zonas urbanas com menos espaços verdes tendem a ser precisamente aquelas onde vivem populações mais vulneráveis aos efeitos das temperaturas extremas.
Enquanto engenheira, vejo frequentemente grandes investimentos em infraestruturas cinzentas: estradas, edifícios, sistemas de drenagem ou equipamentos urbanos. Todas estas infraestruturas são essenciais. No entanto, talvez esteja na altura de valorizarmos da mesma forma as infraestruturas verdes. Uma árvore madura pode prestar serviços ambientais que dificilmente seriam replicados por soluções tecnológicas com a mesma eficiência e baixo custo.
Naturalmente, aumentar a cobertura arbórea não é apenas plantar árvores. É necessário escolher as espécies adequadas, garantir a sua manutenção, assegurar disponibilidade hídrica e integrar a vegetação numa estratégia urbana de longo prazo. Uma árvore plantada hoje poderá demorar décadas a atingir todo o seu potencial, o que significa que as decisões tomadas agora terão impacto nas gerações futuras.
Se os 30% representam uma meta ideal ou apenas uma referência orientadora, poderá ser discutido por especialistas. O que parece menos discutível é que as cidades do futuro precisarão de mais natureza integrada no espaço urbano. E talvez uma das perguntas que devamos fazer seja simples: quando planeamos uma nova rua, um novo bairro ou uma nova infraestrutura, estamos a reservar espaço suficiente para as árvores que irão proteger os cidadãos daqui a 20 ou 30 anos?
Porque, no final, investir em árvores não é apenas investir no ambiente. É investir na resiliência, na saúde e na qualidade de vida das cidades.
