A ciência faz-se em comunidade

by Susana Lucas
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A imagem do cientista isolado, fechado num laboratório à espera de uma ideia extraordinária, tem uma força que todos reconhecemos. Mas deixa de fora grande parte do que torna uma descoberta possível: as conversas, as perguntas de outros investigadores, as experiências repetidas e o conhecimento acumulado ao longo de gerações.

David Gross, Prémio Nobel da Física de 2004, afirmou, por ocasião do anúncio da distinção, que a investigação da realidade fundamental é um esforço colaborativo de uma comunidade de cientistas. Fez questão de reconhecer o contributo dos físicos experimentais para o trabalho então premiado. A declaração está documentada numa publicação da Fundação Kavli, de outubro de 2004.

Concordo plenamente com esta visão. O talento individual tem valor, e há pessoas capazes de formular perguntas que abrem caminhos inesperados. Mas uma ideia precisa de ser discutida, testada, questionada. Até o trabalho feito em silêncio dialoga com aquilo que outros descobriram antes.

Há também uma exigência nesta forma de entender a ciência. Colaborar implica partilhar reconhecimento, ouvir objeções e aceitar que outra pessoa pode encontrar uma fragilidade no nosso raciocínio. Exige confiança suficiente para expor uma dúvida e maturidade para rever uma convicção.

Por isso, quando celebramos uma descoberta, gostaria que olhássemos com mais atenção para as equipas que a tornaram possível. Para quem concebeu uma experiência, preparou instrumentos, analisou dados, acompanhou estudantes ou manteve um laboratório a funcionar. O contributo de cada pessoa pode ter uma visibilidade diferente, mas merece ser reconhecido com justiça.

Esta reflexão interessa também à educação. Se queremos preparar os jovens para produzir conhecimento, precisamos de lhes dar oportunidades para aprenderem a trabalhar em conjunto, a fundamentar uma discordância e a assumir responsabilidades partilhadas.

A ciência precisa de pessoas com ideias próprias e de comunidades capazes de as pôr à prova. É nessa relação entre autonomia e colaboração que vejo uma das suas maiores forças.

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