A ciência não tem fronteiras

(nem deve pagar por elas)

by Susana Lucas
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As declarações de Rogério Colaço, diretor do Instituto Superior Técnico, sobre a decisão do governo americano de restringir a atribuição de vistos a cidadãos portugueses, na sequência do assassinato de Nuno Loureiro, merecem atenção e reflexão. Não apenas pelo contexto trágico que lhes dá origem, mas sobretudo pelo princípio que colocam em causa: a ciência como espaço internacional, aberto e colaborativo.

A reação política a um crime violento é compreensível. Estados têm o dever de proteger os seus cidadãos e de responder a acontecimentos que geram alarme público. No entanto, quando essas respostas se traduzem em medidas generalistas — como restrições de vistos a investigadores, estudantes e académicos — o risco é o de penalizar comunidades inteiras que nada têm a ver com o ato cometido.

Como bem sublinhou Rogério Colaço, a ciência constrói-se através da mobilidade, da troca de ideias e da cooperação entre países. Laboratórios, universidades e centros de investigação vivem de redes internacionais onde o conhecimento circula livremente, independentemente da nacionalidade, da origem ou do passaporte.

A história da ciência moderna é, aliás, a história de fronteiras constantemente atravessadas. Investigadores formam-se num país, trabalham noutro, colaboram com equipas espalhadas por vários continentes. Interromper ou dificultar esse fluxo não torna ninguém mais seguro; torna, isso sim, a ciência mais pobre e mais fechada.

Associar um crime individual — por mais grave e chocante que seja — a uma nacionalidade ou a uma comunidade académica é um erro perigoso. A violência não tem passaporte. E a ciência não pode ser refém de decisões políticas tomadas sob o peso da emoção ou da pressão mediática.

Num momento em que desafios globais como as alterações climáticas, a saúde pública ou a transição energética exigem respostas conjuntas, enfraquecer a cooperação científica internacional é um retrocesso. Universidades como o Instituto Superior Técnico existem precisamente para formar cidadãos e cientistas capazes de trabalhar num mundo interligado, não num sistema de muros e desconfiança.

Honrar a memória de Nuno Loureiro passa também por defender aquilo que ele representava: uma ciência aberta, exigente e internacional. Transformar uma tragédia num obstáculo à mobilidade académica seria acrescentar perda à perda.

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