Recentemente deparei-me com uma publicação onde Nuno Garcia defendia que a Engenharia Civil tem dificuldade em atrair novos estudantes porque perdeu espaço e alguma credibilidade ao longo dos anos. A afirmação fez-me refletir sobre o tema e, embora concorde parcialmente com o diagnóstico, talvez as causas sejam mais complexas.
Na minha perspetiva, a Engenharia Civil perdeu efetivamente espaço durante um determinado período. Depois da crise financeira e da forte quebra do investimento público e privado na construção, assistimos a mais de uma década em que a procura por profissionais da área diminuiu significativamente. Muitos jovens acabaram por associar o setor a menor estabilidade profissional, enquanto outras áreas surgiam com maior visibilidade mediática e perspetivas de crescimento mais evidentes.
No entanto, quando falamos de credibilidade, a questão parece-me diferente. Não considero que a Engenharia Civil tenha perdido credibilidade técnica ou científica. Pelo contrário, continua a ser uma das profissões mais determinantes para o desenvolvimento da sociedade. Basta olhar à nossa volta para perceber que tudo o que utilizamos diariamente depende, direta ou indiretamente, do trabalho de engenheiros civis: edifícios, estradas, pontes, sistemas de abastecimento de água, infraestruturas energéticas ou redes de transporte.
Talvez o que tenha acontecido seja algo mais transversal às engenharias. Nos últimos anos verificou-se uma diminuição da procura por várias áreas tradicionalmente associadas a uma forte componente matemática e científica. O percurso é exigente, requer capacidade de abstração, raciocínio lógico e persistência. Num contexto onde muitos jovens procuram percursos mais rápidos ou percecionados como mais acessíveis, essa exigência pode funcionar como um fator de afastamento.
Claro que existem exceções. Áreas como a Engenharia Informática continuam a atrair muitos candidatos, impulsionadas pela transformação digital da economia e pelas oportunidades de emprego altamente visíveis. Também a Engenharia Aeroespacial tem registado elevada procura, embora se trate de uma área com um mercado de trabalho mais específico e relativamente limitado quando comparado com outras engenharias.
Mas talvez estejamos perante algo que vai além dos números de acesso. Estamos a assistir a uma mudança de mentalidades, de expectativas e da forma como as novas gerações encaram o trabalho e a carreira profissional. As instituições de ensino superior têm de compreender estas mudanças e adaptar a forma como apresentam as profissões e os seus impactos na sociedade. As empresas, por sua vez, também precisam de refletir sobre os modelos de recrutamento, progressão de carreira, flexibilidade e valorização dos profissionais.
A Engenharia Civil enfrenta hoje desafios extraordinariamente estimulantes: cidades inteligentes, adaptação às alterações climáticas, digitalização da construção, inteligência artificial aplicada à gestão de infraestruturas, eficiência energética, economia circular e resiliência territorial. Talvez o desafio não seja apenas atrair estudantes para a Engenharia Civil, mas conseguir transmitir que esta profissão continua a estar no centro das grandes transformações da sociedade.
As profissões, tal como os mercados, vivem ciclos. Algumas atravessam períodos de menor visibilidade e outras de maior procura. O importante é não confundir um ciclo com uma perda definitiva de relevância. A necessidade de engenheiros capazes de conceber, construir, gerir e transformar o território dificilmente desaparecerá. O verdadeiro desafio será garantir que as novas gerações conseguem reconhecer o valor e o impacto que estas profissões continuam a ter no mundo que estamos a construir.
