Apesar de apenas das últimas semanas se ter dado muita importância à subida dos preços de energia, os valores estão anormalmente altos desde abril/maio deste ano.
Na passada sexta-feira esta subida já se fez também refletir nos preços do mercado regulado. Ou seja, de forma indireta já estamos todos a pagar por este efeito através dos nossos impostos.
Mas afinal o que está por trás desta subida?
Em Portugal a base do diagrama de consumo de energia elétrica é compensada, maioritariamente, através de produção renovável. Energia esta que tem um custo muito inferior ao valor de fecho de mercado (valor que marca o custo de energia para cada hora). No entanto, as pontas e os picos, para os quais não existe produção renovável suficiente, são preenchidos pelas centrais de ciclo combinado. A fonte de energia das centrais de ciclo combinado é o gás natural. Este é o principal fator que tem influenciado o preço da energia elétrica (há outros, mas este é o que tem maior impacto).
O gás natural chega à Europa através de gasoduto ou através de barco. Para além dos gasodutos atualmente em funcionamento (incapazes de suprir a totalidade das necessidades) existe um novo gasoduto, o Nord Stream 2, totalmente construído que liga a Rússia à Alemanha e que, por questões geopolíticas, ainda não está em funcionamento.
A China está a pagar cerca de 1/3 a mais do que a Europa pelo gás transportado por via marítima, normalmente GNL. Ou seja, os produtores vão naturalmente preferir vender este gás para a China. Somos assim abastecidos, maioritariamente, por gasoduto que tem um custo superior.
Este efeito do mercado de gás natural começou a sentir-se a partir de abril, altura em que os preços tipicamente estariam a baixar, com o início do tempo mais ameno. No entanto, o inverno foi rigoroso no norte da Europa e durou mais do que o costume. As reservas de gás natural ficaram baixas e ficamos à espera que o preço baixasse para se começar a comprar para armazenar. Como o preço não baixou (devido ao efeito da China que já falei e do facto do Nord Stream 2 não ter entrado em operação), foi-se comprando apenas o essencial.
Neste momento as reservas estão muito baixas e o inverno aproxima-se. Entramos assim perante um mercado muito influenciado pela especulação.
A principal questão é até onde é possível ir. Em Portugal precisamos do gás natural principalmente para a indústria e para produção de energia elétrica. No norte da Europa o gás é essencial para a sobrevivência.
