A qualidade da ciência mede-se em artigos ou em confiança?

by Susana Lucas
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No âmbito do encontro da RIQUAL vou ter hoje a oportunidade de apresentar, juntamente com a Helena Simão, uma reflexão sobre um tema que considero particularmente relevante: a qualidade na ciência.

Durante muitos anos habituámo-nos a avaliar a atividade científica através de indicadores relativamente simples. Número de artigos publicados, fator de impacto das revistas, índice H ou financiamento captado são exemplos frequentemente utilizados para medir o desempenho de investigadores e instituições. Mas será que estas métricas conseguem realmente traduzir a qualidade da ciência produzida?

Esta foi precisamente a questão que motivou a nossa apresentação.

Vivemos num período extraordinário para a ciência. Nunca se produziu tanto conhecimento, nunca existiram tantas colaborações internacionais e nunca tivemos acesso a tanta informação. Mas também enfrentamos desafios significativos: pressão para publicar, competição crescente por financiamento, problemas de reprodutibilidade, desinformação e desafios associados à utilização da inteligência artificial na investigação científica.

Ao longo da nossa análise verificámos que a qualidade científica é muito mais do que um resultado final. É um processo que envolve rigor metodológico, integridade, transparência, reprodutibilidade, relevância e impacto societal.

Uma das reflexões mais interessantes prende-se com um aparente paradoxo. Enquanto a comunidade científica afirma valorizar o rigor, a colaboração e o impacto social, muitas vezes os sistemas de avaliação continuam a privilegiar sobretudo a quantidade de publicações e indicadores bibliométricos. Existe, por vezes, uma diferença entre aquilo que dizemos valorizar e aquilo que efetivamente recompensamos.

Talvez por isso tenhamos proposto um framework que procura olhar para a qualidade científica de forma integrada, considerando simultaneamente as práticas de qualidade, os desafios estruturais e o impacto gerado pela investigação.

Mas a principal conclusão que retirei desta reflexão é relativamente simples.

A confiança na ciência não começa quando um artigo é publicado. Começa muito antes, através da integridade dos investigadores, da qualidade dos métodos utilizados, da transparência dos processos e da responsabilidade com que o conhecimento é produzido.

E também não termina na publicação. A qualidade da ciência prolonga-se na sua capacidade de gerar conhecimento útil, resolver problemas reais e contribuir para o desenvolvimento da sociedade.

Talvez esteja na altura de fazermos uma pergunta diferente. Em vez de perguntarmos apenas quantos artigos produzimos, talvez devêssemos perguntar que valor estamos efetivamente a criar.

Porque, no final, a maior evidência da qualidade científica pode não ser aquilo que publicamos, mas sim a confiança que conseguimos gerar.

O que achas disto?

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