A responsabilidade dos projetos digitais também exige responsabilidade técnica

by Susana Lucas
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Recentemente li uma notícia da Ordem dos Engenheiros sobre a intenção de serem definidos requisitos específicos para os técnicos responsáveis por projetos digitais de grande responsabilidade pública, em particular na área da informática. Considero esta uma medida muito pertinente e, acima de tudo, necessária.

Vivemos numa sociedade em que as infraestruturas digitais são cada vez mais críticas. Sistemas de saúde, plataformas da administração pública, gestão de infraestruturas, energia, mobilidade ou proteção civil dependem diariamente de soluções digitais cujo funcionamento tem impacto direto na vida de milhões de pessoas. Quando estes sistemas falham, as consequências podem ser significativas, tanto do ponto de vista económico como da segurança e da confiança dos cidadãos.

Por isso, tal como acontece noutras áreas da engenharia, faz sentido que os projetos com elevado impacto público sejam desenvolvidos e coordenados por profissionais que demonstrem possuir qualificações, experiência e responsabilidade adequadas à complexidade das funções que desempenham.

Na minha perspetiva, esta reflexão pode ir ainda mais longe. Não basta definir requisitos para quem coordena ou assina um projeto. É igualmente importante garantir que a componente técnica destes sistemas seja acompanhada por engenheiros com experiência consolidada, especialmente quando estão em causa decisões críticas para o funcionamento de serviços essenciais.

Tal como numa ponte, num edifício ou numa barragem valorizamos a experiência de engenheiros seniores e, em muitos casos, de especialistas reconhecidos pela Ordem dos Engenheiros, considero que o mesmo princípio deve ser aplicado aos grandes projetos digitais. A transformação digital trouxe novas oportunidades, mas também novas responsabilidades. A confiança da sociedade nestes sistemas depende da qualidade técnica das soluções e da competência de quem as desenvolve.

Naturalmente, esta valorização da experiência não deve ser entendida como uma limitação aos profissionais mais jovens. Pelo contrário, os projetos de maior dimensão devem promover equipas multidisciplinares e intergeracionais, onde o conhecimento, a inovação e a experiência se complementam. Os jovens engenheiros trazem novas abordagens e domínio das tecnologias emergentes; os profissionais mais experientes contribuem com uma visão estratégica, capacidade de decisão e conhecimento acumulado na gestão do risco.

A engenharia sempre teve como principal missão colocar o conhecimento ao serviço da sociedade. Num mundo cada vez mais digital, essa responsabilidade mantém-se exatamente a mesma. Apenas mudaram as ferramentas. E, por isso mesmo, também os níveis de exigência e responsabilidade devem acompanhar esta evolução.

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