Ao longo dos anos, costumo dizer aos meus alunos uma frase que, à primeira vista, pode parecer um contrassenso: a água é provavelmente o maior “inimigo” de um edifício, mas não podemos viver sem ela e muito menos ignorá-la.
Na construção, a água está sempre presente. Está nos materiais durante a sua produção e aplicação, está na chuva, está no solo e está, inevitavelmente, no interior dos edifícios. Basta pensarmos que cada um de nós liberta diariamente vapor de água através da respiração e da transpiração. A isto juntam-se atividades tão simples como cozinhar, tomar banho ou secar roupa. Ou seja, mesmo num edifício perfeitamente estanque à chuva, a água continua a existir no seu interior.
É precisamente por isso que a ventilação assume um papel tão importante. Um edifício não deve apenas impedir a entrada da água da chuva; deve também conseguir eliminar a humidade produzida no seu interior. Quando isso não acontece, começam a surgir condensações, bolores, degradação dos materiais e uma diminuição da qualidade do ar interior, com consequências para a saúde e para o conforto dos ocupantes.
Por outro lado, a água proveniente do exterior deve permanecer exatamente onde pertence: no exterior. A envolvente do edifício deve ser concebida para resistir à chuva, controlar infiltrações e garantir a estanquidade necessária para proteger a estrutura e os espaços interiores. Uma pequena entrada de água pode parecer insignificante, mas, ao longo do tempo, pode originar danos estruturais, perda de desempenho térmico e elevados custos de manutenção.
A boa construção não passa por “lutar” contra a água, mas sim por compreendê-la. É necessário conhecer o seu comportamento, prever os seus percursos e projetar soluções que permitam controlar a sua presença. A física das construções ensina-nos precisamente isso: a água desloca-se, evapora, condensa, infiltra-se e reage às diferenças de temperatura e pressão. Ignorar estes fenómenos é, quase sempre, o primeiro passo para futuros problemas.
Talvez por isso este seja um dos temas que mais gosto de abordar nas aulas. A água é invisível em muitos momentos, mas deixa marcas bem visíveis quando não é devidamente considerada no projeto, na execução ou na utilização dos edifícios.
No fundo, construir bem é também saber gerir a água. Manter a que deve permanecer no exterior fora do edifício e garantir que a humidade inevitavelmente produzida no interior pode ser removida através de uma ventilação eficaz. É este equilíbrio que contribui para edifícios mais duráveis, mais saudáveis e mais confortáveis para quem os utiliza.
