Ao longo dos últimos anos muito se tem falado sobre a transformação digital do setor da construção. Entre as várias ferramentas disponíveis, o Building Information Modeling (BIM) assumiu um papel central, prometendo maior eficiência, melhor coordenação entre especialidades, redução de erros e uma gestão mais inteligente de todo o ciclo de vida dos edifícios.
Em Portugal existia a expectativa de que este fosse o ano em que a submissão de projetos urbanísticos em formato BIM passasse a ser uma realidade em todas as câmaras municipais. Infelizmente, até ao momento, essa mudança continua por concretizar. Enquanto isso, continuamos a trabalhar maioritariamente com processos tradicionais, desperdiçando muitas das potencialidades que a digitalização pode oferecer.
O mais curioso é que esta realidade contrasta com a evolução que já se verifica na própria indústria da construção. A crescente aposta na construção industrializada obriga muitas empresas a utilizar BIM no seu dia a dia. Não se trata apenas de desenhar modelos tridimensionais. O BIM tornou-se uma ferramenta essencial para otimizar o processo de fabrico, apoiar a orçamentação, planear a logística, coordenar especialidades e melhorar a execução em obra. Em muitos casos, já é um requisito para garantir qualidade, produtividade e competitividade.
Este desfasamento entre a administração pública e a evolução tecnológica do setor levanta inevitavelmente algumas questões. Até quando continuará esta diferença? Será apenas uma questão tecnológica ou existirão também resistências à mudança ao longo da cadeia de valor? Como acontece em muitas transformações, a tecnologia evolui mais rapidamente do que os processos e, sobretudo, do que as mentalidades.
Recordo-me de ter realizado a formação inicial em BIM promovida pela Ordem dos Engenheiros em 2016. Na altura, acreditávamos que a adoção generalizada estaria para breve. Passaram dez anos. Durante este período, o software evoluiu, as metodologias amadureceram, surgiram novas ferramentas de interoperabilidade, a construção industrializada ganhou expressão e as empresas investiram fortemente em competências digitais. No entanto, a utilização corrente do BIM na tramitação dos projetos continua longe de ser uma realidade nacional.
Continuo, no entanto, otimista. A transformação digital da construção não é uma moda passageira; é uma necessidade para responder aos desafios da sustentabilidade, da produtividade e da qualidade do ambiente construído. Quanto mais tempo adiarmos esta mudança, maior será a distância entre aquilo que a tecnologia já permite fazer e aquilo que efetivamente fazemos.
Espero sinceramente que, num futuro próximo, deixemos de discutir quando o BIM será implementado e passemos simplesmente a falar dos benefícios que trouxe para projetistas, empresas, municípios e, acima de tudo, para a qualidade das nossas cidades e edifícios.
