Um estudo recente da Universidade de Aveiro volta a trazer para o centro do debate uma questão fundamental para o futuro das cidades: a forma urbana importa — e muito. Com base num indicador desenvolvido pela própria equipa de investigação, os autores mostram que cidades mais compactas tendem a ser simultaneamente mais sustentáveis e mais saudáveis do que aquelas que crescem de forma dispersa.
À primeira vista, a conclusão pode parecer intuitiva, mas o valor do estudo está em quantificá-la. A análise mostra que o padrão de crescimento urbano influencia diretamente variáveis críticas como o consumo energético, a mobilidade e, de forma muito clara, a qualidade do ar.
MENOS DISPERSÃO, MENOS EMISSÕES
Um dos resultados mais relevantes prende-se com o tráfego rodoviário. Em cidades compactas, onde habitação, trabalho, comércio e serviços estão mais próximos, as distâncias médias percorridas são menores. Isso traduz-se em menos viagens longas de automóvel, mais deslocações a pé, de bicicleta ou em transporte público — e, consequentemente, menos emissões de poluentes atmosféricos.
É aqui que entra o elo entre forma urbana e saúde pública: menos emissões de tráfego significam menos partículas finas, menos óxidos de azoto e menos ozono troposférico, poluentes diretamente associados a doenças respiratórias e cardiovasculares. A cidade compacta não é apenas mais eficiente do ponto de vista energético; é também um espaço mais respirável.
UM INDICADOR QUE MEDE MAIS DO QUE DENSIDADE
O indicador desenvolvido pela equipa da Universidade de Aveiro não olha apenas para quantas pessoas vivem por quilómetro quadrado. Ele integra vários fatores — uso do solo, mobilidade, padrões de edificação e acessibilidade — permitindo avaliar o grau real de “compacidade funcional” de uma cidade.
Isto é importante porque uma cidade pode ser densa e, ainda assim, mal organizada. O que realmente importa é a proximidade entre atividades: viver perto do trabalho, da escola, dos serviços, dos espaços verdes e da cultura. Quando essa proximidade existe, a cidade torna-se mais eficiente, mais inclusiva e mais sustentável.
PENSAR O CRESCIMENTO DAS CIDADES (E DOS SEUS ARREDORES)
Estudos como este são especialmente relevantes numa fase em que muitas cidades portuguesas continuam a crescer para fora, através de urbanizações dispersas, parques logísticos isolados e zonas comerciais dependentes do automóvel. Este modelo de expansão aumenta os custos de infraestrutura, gera mais tráfego e agrava a dependência energética.
Ao mesmo tempo, cria desigualdades territoriais: quem vive mais longe do centro gasta mais tempo e dinheiro em deslocações, está mais exposto à poluição e tem menos acesso a serviços.
A evidência científica vai-se tornando cada vez mais clara: crescer para dentro, requalificar, densificar de forma inteligente e misturar usos é uma estratégia mais sustentável do que continuar a espalhar a cidade pelo território.
UMA FERRAMENTA PARA POLÍTICAS PÚBLICAS
O maior valor deste tipo de investigação não está apenas nos números, mas na sua capacidade de informar decisões. Um indicador robusto permite aos municípios, às áreas metropolitanas e ao Estado avaliar os impactos reais das opções de planeamento urbano.
Num tempo de emergência climática, crise da habitação e pressão sobre os sistemas de saúde, a forma como desenhamos as cidades deixou de ser uma questão estética ou ideológica. É uma questão de qualidade de vida, saúde pública e sustentabilidade económica.
E a ciência está a dizer-nos algo muito claro: cidades mais compactas não são apenas mais eficientes — são, literalmente, melhores para respirar, claro quando não se pode viver no campo!
