Em Portugal, a relação entre o meio científico e o tecido empresarial ainda vive marcada por uma distância difícil de ignorar. Apesar dos avanços nos últimos anos, o diálogo entre quem investiga e quem empreende continua, muitas vezes, mais desejado do que concretizado.
Por um lado, o tecido empresarial português é constituído, em larga maioria, por pequenas e médias empresas (PMEs), muitas delas com recursos limitados, focadas em garantir a sustentabilidade do dia-a-dia e com pouca margem para investir em investigação ou inovação de longo prazo. Nesses contextos, a ciência pode parecer um luxo — algo distante, quase inacessível, e por vezes difícil de traduzir em retorno imediato.
Por outro lado, também é importante reconhecer que, dentro da própria academia, ainda existe, em certos círculos, um certo elitismo que afasta em vez de aproximar. A linguagem excessivamente técnica, a valorização quase exclusiva da publicação em revistas internacionais e a falta de incentivos institucionais para a colaboração com empresas contribuem para manter essa separação.
Mas será mesmo inevitável que estes dois mundos andem desencontrados?
A verdade é que há imenso potencial por explorar. A ciência produz conhecimento e soluções com enorme valor — muitas vezes subaproveitado — e as empresas enfrentam desafios práticos que poderiam ser transformados em oportunidades de inovação se houvesse uma ligação mais eficaz.
É necessário um esforço mútuo: que a ciência desça das torres de marfim e que as empresas vejam o conhecimento como motor de crescimento, e não como um custo. Isso implica mais programas de colaboração, incentivos claros à transferência de tecnologia, mediação por estruturas que falem fluentemente as duas “línguas” e, acima de tudo, uma mudança cultural.
Portugal tem talento, criatividade e conhecimento. O que falta, muitas vezes, é construir as pontes certas — e ter a coragem de atravessá-las.
