Ciência não é só retorno económico: uma reflexão necessária

by Susana Lucas
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Nos últimos dias, o Ministro da Educação, Ciência e Inovação afirmou que os cientistas “têm de perceber que têm a obrigação de devolver à sociedade o investimento que é feito neles”. Esta ideia parte do princípio de que a ciência deve gerar impacto direto e mensurável, sobretudo em termos económicos. Mas quem vive diariamente este ecossistema sabe que a realidade é bem mais complexa.

Em Portugal, a maioria das pessoas que fazem ciência não são investigadores a tempo inteiro, sustentados por salários estáveis. São docentes do ensino superior que, para além de aulas, orientação de estudantes e tarefas administrativas, acumulam trabalho de investigação científica. Muitas vezes, sem reconhecimento na sua carga horária e sem remuneração adicional. Fazer ciência é, neste contexto, uma escolha de compromisso e resiliência, não um privilégio garantido.

Comparando com outros países europeus, percebemos o contraste: na Alemanha, França ou Países Baixos, existe uma valorização clara da ciência fundamental — aquela que não traz retorno imediato, mas constrói conhecimento de base. É este tipo de investigação que, mais tarde, abre portas a descobertas disruptivas, prémios Nobel ou tecnologias inesperadas. A União Europeia reconhece isto e insiste que a ciência deve ser financiada como parte essencial do desenvolvimento estratégico, com a meta dos 3% do PIB investidos em I&D.

Se reduzirmos a ciência a um “tem de dar dinheiro”, arriscamo-nos a esquecer a sua função principal: compreender, questionar, inovar sem prazos curtos. O verdadeiro retorno não está apenas nos contratos ou patentes, mas também na formação de estudantes mais críticos, na qualidade das instituições e na capacidade de um país pensar o seu futuro com autonomia.

Sim, a ciência deve prestar contas à sociedade. Mas isso não significa colocá-la ao serviço exclusivo da lógica imediata do mercado. Significa garantir condições para que quem ensina e investiga possa fazê-lo de forma digna, com tempo e meios adequados. Só assim Portugal poderá aproximar-se das nações que equilibram impacto económico com a aposta séria na ciência fundamental.

Porque, no fundo, a ciência não é apenas investimento — é também cultura, identidade e futuro.

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