Cientistas Multifacetados: As Tarefas Que Nos Pedem… Mas Para As Quais Ninguém Nos Preparou

by Susana Lucas
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No mundo da ciência, o foco principal sempre foi – e continua a ser – a investigação. No entanto, quem trabalha em ciência sabe que a realidade é muito mais complexa do que “apenas” investigar. Cada vez mais, espera-se que os investigadores sejam também gestores, comunicadores, administradores, formadores, estrategas e até influenciadores. Mas há um problema: ninguém nos ensina a fazer estas coisas.

Cientistas, sim. Mas também… tudo o resto

Ao longo de uma carreira científica, surgem inevitavelmente responsabilidades que não fazem parte da nossa formação de base:

  • Gerir projetos: planear tarefas, cumprir prazos, coordenar equipas, submeter relatórios técnicos e financeiros.
  • Gerir financiamento: elaborar orçamentos, controlar gastos, justificar despesas de acordo com regras muitas vezes labirínticas.
  • Comunicar ciência: traduzir resultados complexos em linguagem acessível, interagir com os media, fazer divulgação junto do público e das escolas.
  • Liderar equipas: gerir pessoas, conflitos, motivações e expectativas — com pouca ou nenhuma formação em gestão de recursos humanos.
  • Participar em decisões institucionais: integrar conselhos científicos, avaliar propostas, contribuir para políticas de ciência.

Tudo isto exige competências específicas que não são abordadas, ou são apenas superficialmente referidas, ao longo da formação académica em ciência.

O impacto do “aprender a fazer”

O resultado? Muitos investigadores acabam por aprender tudo “à força”, à medida que surgem as necessidades. Esta aprendizagem empírica é valiosa, mas também desgastante. Pode levar à frustração, ao erro.

Além disso, esta pressão para sermos “cientistas-tudo-em-um” desvia o foco daquilo que nos levou à ciência: a curiosidade, a descoberta, a investigação.

Como podemos ultrapassar este desafio?

  1. Reconhecer o problema
    Antes de mais, é preciso deixar de tratar estas competências como “soft skills opcionais”. Elas são estruturais. A ciência moderna exige mais do que conhecimento técnico — exige capacidade de gestão, comunicação e liderança.
  2. Formação complementar
    Universidades, centros de investigação e fundações científicas devem oferecer formações práticas e adaptadas a estas necessidades reais: gestão de ciência, comunicação pública, financiamento europeu, liderança académica, etc.
  3. Apoio institucional
    Criar equipas de suporte — como gestores de ciência, técnicos de comunicação, e consultores de financiamento — que trabalhem em articulação com os investigadores e não apenas como “recursos de última hora” ou para pedir a informação são concluída, serem mais que controladores…
  4. Mentoria e partilha de experiências
    Estimular programas de mentoria entre investigadores mais seniores e mais jovens, com espaço para partilha de erros, sucessos e estratégias.
  5. Valorizar estas competências
    É fundamental que o sistema científico reconheça e valorize formalmente o trabalho não estritamente científico: coordenar um projeto ou liderar uma ação de comunicação deve contar para progressão na carreira.

Ser cientista, hoje, vai muito além do laboratório ou do artigo publicado. A multiplicidade de funções que nos são pedidas exige uma resposta organizada e estruturada — não pode continuar a ser deixada ao improviso de cada um.

A ciência portuguesa tem talento, qualidade e ambição. Mas para a fazermos crescer de forma sustentável, temos de formar melhor os seus protagonistas para os muitos papéis que o século XXI lhes exige.

 

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