No passado dia 29 de maio tive a oportunidade de participar, em Leiria, na conferência promovida pela Ordem dos Engenheiros dedicada ao tema “Construção Resiliente e Sustentável – Território e Infraestruturas Críticas”. Foi mais um momento de reflexão sobre os desafios que enfrentamos enquanto sociedade e sobre a forma como diferentes entidades e especialidades se articulam para aumentar a nossa capacidade de resposta perante crises.
Curiosamente, uma das primeiras reflexões surgiu ainda durante a viagem para Leiria. Ao percorrer algumas das zonas afetadas pelos fenómenos extremos que marcaram os últimos meses, foi impossível não reparar que continuam a existir muitos telhados por reparar. Este simples detalhe recorda-nos que os impactos dos desastres não desaparecem quando deixam de ser notícia. Muitas famílias e comunidades continuam a viver diariamente com as suas consequências.
Ao longo da conferência, a mesa-redonda que mais me marcou reuniu representantes da APA, Infraestruturas de Portugal, Gabinete Nacional de Cibersegurança, REN e ANACOM. Apesar das diferentes missões e áreas de atuação, a mensagem transmitida foi bastante clara: nenhuma entidade consegue garantir, isoladamente, a resiliência do território e das infraestruturas críticas. Todos dependemos uns dos outros. Os riscos são cada vez mais complexos e interligados, exigindo colaboração permanente entre engenheiros, gestores, decisores públicos, especialistas em ambiente, energia, comunicações e cibersegurança.
Aliás, um dos aspetos que mais me impressionou foi ouvir que as tentativas de ataque aos sistemas críticos são uma realidade diária. Muitas vezes associamos a palavra “resiliência” apenas a tempestades, incêndios ou sismos, mas a verdade é que a proteção das infraestruturas passa igualmente pela sua segurança digital.
Uma ideia que considero particularmente interessante seria a existência de um pequeno kit ou centro de apoio de emergência em cada junta de freguesia. Um local de referência para a comunidade em situações de crise, onde fosse possível obter informação atualizada, acesso a água, carregar equipamentos, aquecer alimentos ou até tomar um banho. São medidas simples, mas que podem fazer uma enorme diferença quando as infraestruturas habituais deixam de funcionar.
Gostei igualmente de ouvir o Bastonário da Ordem dos Engenheiros. A sua intervenção transmitiu uma visão muito próxima do território e dos problemas concretos das populações, algo que considero essencial numa profissão que existe precisamente para encontrar soluções para os desafios da sociedade.
Por fim, merece destaque o trabalho da comissão que está a realizar o levantamento dos edifícios danificados pelos eventos extremos. Entre os vários alertas apresentados, chamou-me particularmente a atenção a referência ao peso significativo das construções clandestinas nos danos registados, não apenas nos próprios edifícios, mas também nos prejuízos causados a terceiros. Esta é uma questão que merece reflexão séria, porque a resiliência do território começa muito antes da emergência, através do planeamento, do cumprimento das regras e da construção responsável.
Saí de Leiria com a convicção reforçada de que a resiliência não é apenas uma questão técnica. É uma responsabilidade coletiva que exige preparação, cooperação e visão de longo prazo. E, tal como ficou evidente ao longo de toda a conferência, construir um território mais seguro e sustentável depende da capacidade de todos trabalharmos em conjunto.
