Sempre que observo uma obra nova, fico impressionada com a quantidade de decisões que são tomadas durante a fase de projeto e construção. Escolhem-se materiais, sistemas, equipamentos, percursos de instalações e soluções técnicas para responder às necessidades do momento. No entanto, raramente vejo a mesma atenção dedicada a uma questão fundamental: como será feita a manutenção, reparação ou renovação deste edifício daqui a 20 ou 30 anos?
Na realidade, todos sabemos que os edifícios envelhecem. Os equipamentos chegam ao fim da sua vida útil, as instalações precisam de ser substituídas, os materiais degradam-se e os requisitos regulamentares evoluem. Apesar disso, continuamos muitas vezes a projetar como se a construção fosse um produto acabado e não um sistema que irá necessitar de cuidados ao longo de décadas.
Quem já participou numa intervenção de reabilitação conhece bem o problema. Tenta-se localizar uma tubagem sem desenhos atualizados. Procura-se compreender como foi executada uma ligação estrutural. Necessita-se de substituir um equipamento, mas já não existe documentação técnica disponível. Muitas vezes, as pessoas que projetaram, construíram ou acompanharam a obra já não estão disponíveis para esclarecer dúvidas.
O resultado é conhecido: mais tempo gasto em diagnóstico, maiores custos de intervenção, maior risco de erros e, frequentemente, a necessidade de destruir para descobrir.
Curiosamente, dispomos hoje de ferramentas que podem ajudar a resolver parte deste desafio. A modelação BIM, os gémeos digitais, a digitalização de documentação técnica e os sistemas de gestão de ativos permitem criar uma memória digital dos edifícios. Uma memória que pode acompanhar a infraestrutura durante todo o seu ciclo de vida e facilitar futuras intervenções.
Mas a tecnologia, por si só, não resolve o problema. É necessário mudar a forma como pensamos os projetos. Tal como já se fala em projetar para a sustentabilidade, para a desmontagem ou para a circularidade, talvez devêssemos falar mais em projetar para a manutenção.
A verdadeira qualidade de uma construção não se mede apenas no dia da inauguração. Mede-se também pela facilidade com que conseguimos mantê-la, adaptá-la e prolongar a sua vida útil ao longo dos anos.
Porque construir é importante. Mas garantir que as gerações futuras conseguem compreender, reparar e melhorar aquilo que construímos hoje talvez seja ainda mais importante.
