A economia circular na construção é um conceito de que se fala cada vez mais. Está presente em conferências, projetos de investigação, estratégias ambientais e documentos europeus. No entanto, entre falar de economia circular e aplicá-la verdadeiramente nos edifícios e nas obras existe ainda uma distância considerável.
Durante muito tempo, a construção funcionou segundo um modelo essencialmente linear: extraímos matérias-primas, produzimos materiais, construímos, utilizamos e, no final, demolimos. Uma parte significativa dos materiais transforma-se então em resíduos, mesmo quando ainda poderia conservar valor e ser reutilizada.
A economia circular propõe uma mudança profunda desta lógica. Um material não deve ser visto apenas em função da obra onde é aplicado, mas considerando os vários ciclos de utilização que poderá ter. Um edifício pode, assim, ser entendido como um banco temporário de materiais, componentes e recursos que deverão permanecer em circulação durante o maior tempo possível.
No Reino Unido já encontramos uma aplicação mais prática destes princípios. Existem projetos que incorporam componentes reutilizados, mercados e plataformas de recuperação de materiais, auditorias antes da demolição, passaportes de materiais e edifícios concebidos para adaptação e desmontagem. A reutilização começa a ser considerada não apenas como uma possibilidade ambiental, mas também como uma opção técnica, económica e estratégica.
Em Portugal ainda estamos a dar os primeiros passos. Temos iniciativas interessantes, investigação, empresas empenhadas e uma crescente consciência sobre a necessidade de reduzir os resíduos da construção. Contudo, continuamos muito focados na reciclagem, quando a economia circular deve começar muito antes.
Reciclar é importante, mas deve surgir depois de outras opções. Antes de transformar um material, devemos perguntar se é possível manter o edifício existente, adaptar o espaço, reparar o componente, reutilizá-lo na mesma obra ou integrá-lo noutro projeto. Muitas vezes, a solução mais sustentável não é construir um edifício novo com materiais reciclados, mas conservar, reabilitar e dar uma nova função ao que já existe.
Para que a economia circular se torne uma prática corrente, precisamos de projetar edifícios duráveis, adaptáveis e desmontáveis. Precisamos de conhecer a composição dos materiais, evitar uniões irreversíveis e criar sistemas que permitam substituir apenas os elementos que chegaram ao fim da sua vida útil. Precisamos igualmente de preparar cadernos de encargos que aceitem materiais recuperados e de criar condições técnicas, regulamentares e comerciais para a sua utilização.
Será também necessário mudar algumas perceções. Um material reutilizado não é necessariamente um material de menor qualidade. Pode possuir história, identidade e valor, desde que seja devidamente avaliado e adequado à nova utilização. Para isso, precisamos de sistemas de certificação, rastreabilidade, armazenamento e comercialização que transmitam confiança a projetistas, construtores e donos de obra.
A transição exigirá ainda novas competências. Engenheiros, arquitetos, empreiteiros, fabricantes, gestores de resíduos e entidades públicas terão de trabalhar de forma mais articulada. A circularidade não pode ser resolvida por uma única especialidade nem apenas no final da obra. Tem de estar presente desde as primeiras decisões de projeto.
Talvez em Portugal ainda estejamos numa fase inicial, mas isso também representa uma oportunidade. Podemos aprender com as experiências de outros países, adaptar as soluções à nossa realidade e evitar repetir alguns dos erros de um modelo que já sabemos ser insustentável.
A economia circular na construção não deve permanecer apenas como um conceito interessante. Deve transformar-se numa nova forma de projetar, construir, utilizar, manter, reabilitar e desmontar. Porque um edifício pode chegar ao fim da sua função sem que os seus materiais tenham necessariamente chegado ao fim da sua vida.
