Encontro Ciência 2026: Entre o Futuro da Ciência e a Ciência que Já Fazemos

by Susana Lucas
1 visualizações 2 minutes read
A+A-
Reset

O Encontro Ciência é, todos os anos, um momento que aguardo com expectativa. É uma oportunidade para conhecer novas ideias, estabelecer contactos, refletir sobre os desafios da investigação e perceber quais são as prioridades que se desenham para o sistema científico nacional.

Pelo que vi publicado, tive a sensação de que a ciência foi apresentada quase sempre como algo que acontecerá no futuro. Falou-se da ciência que queremos construir, da inovação que pretendemos alcançar e das transformações que desejamos promover. Tudo isto é importante. No entanto, senti falta de uma reflexão mais profunda sobre a ciência que já existe, que está a ser produzida diariamente por milhares de investigadores e que continua a enfrentar inúmeras dificuldades para se desenvolver.

A ciência não começa amanhã. A ciência faz-se hoje. Faz-se nos laboratórios, nas instituições de ensino superior, nos centros de investigação, nas empresas e nos territórios. Faz-se através de projetos, publicações, orientação de estudantes, colaboração internacional e transferência de conhecimento. Mas faz-se, acima de tudo, através das pessoas.

Por isso, parece-me difícil falar do futuro da ciência sem discutir, de forma clara, as condições em que os investigadores trabalham atualmente. As carreiras de investigação continuam marcadas por uma elevada precariedade, pela dependência de financiamento competitivo e por uma incerteza permanente quanto à continuidade do trabalho desenvolvido. É precisamente a estabilidade das equipas que permite construir conhecimento consistente e responder aos grandes desafios da sociedade.

Outro aspeto que me levou a refletir foi a crescente valorização do impacto económico da investigação. Naturalmente, é desejável que o conhecimento produzido contribua para a inovação, para a competitividade e para o desenvolvimento económico. No entanto, preocupa-me quando o valor da ciência começa a ser medido quase exclusivamente pela sua capacidade de gerar retorno financeiro.

A missão principal da ciência sempre foi produzir conhecimento. É esse conhecimento que, muitas vezes anos mais tarde, dará origem a novas tecnologias, novos produtos, novas empresas e novas soluções para problemas que hoje ainda nem conseguimos antecipar. Se condicionarmos excessivamente a investigação ao retorno económico imediato, corremos o risco de limitar a investigação fundamental, aquela que tantas vezes está na origem das maiores descobertas científicas.

Talvez por isso considere que devemos voltar a colocar o conhecimento no centro da discussão. A ciência cria riqueza, sem dúvida. Mas cria, antes de tudo, compreensão, capacidade crítica, inovação, cultura e desenvolvimento humano. O valor económico é uma consequência importante, mas não deve substituir a essência daquilo que a ciência representa.

Continuarei a acreditar que investir em ciência é investir nas pessoas. Porque são elas que fazem as perguntas, desenvolvem as respostas e constroem o conhecimento que permitirá enfrentar os desafios do presente e preparar, com maior confiança, o futuro.

O que achas disto?

Partilha a tua reação ou deixa um comentário!