Entre a incerteza e a necessidade de rumo para a ciência

by Susana Lucas
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Nos últimos dias li, no Público, um artigo de João Conde com um título particularmente marcante: “Da falecida Fundação para a Ciência e a Tecnologia ao coma da AI²”. Independentemente da concordância ou não com a análise apresentada, o título traduz uma preocupação que muitos investigadores têm vindo a sentir.

Há já vários meses que vivemos um período de grande indefinição. Fala-se em mudanças, em novos modelos de governação, em novas estratégias e em novas formas de organizar o sistema científico nacional. No entanto, para quem está diariamente envolvido na investigação, na preparação de candidaturas, na gestão de projetos ou na orientação de jovens investigadores, continua a existir uma enorme dificuldade em perceber qual será o caminho.

A ciência precisa de estabilidade. Precisa de previsibilidade. Precisa de instituições que transmitam confiança e permitam planear o futuro. Desenvolver investigação não é uma atividade que se organiza de um dia para o outro. Os projetos são preparados durante meses, os consórcios internacionais constroem-se ao longo do tempo e as carreiras científicas dependem de decisões que exigem enquadramento e continuidade.

A ausência de informação clara acaba por gerar um efeito silencioso, mas muito real: adiam-se decisões, aumentam-se as dúvidas e instala-se um sentimento de expectativa permanente. Quem trabalha na ciência adapta-se, como sempre o fez, mas a incerteza prolongada tem custos na motivação, na capacidade de atração de talento e até na credibilidade internacional do sistema científico português.

Naturalmente, qualquer processo de transformação exige tempo e reflexão. Mudar pode ser necessário e até desejável. Mas a mudança deve ser acompanhada de comunicação, de calendário e de uma visão clara sobre os objetivos a alcançar.

Enquanto investigadora, não espero que todas as respostas existam de imediato. Espero, isso sim, que exista uma direção bem definida. Porque a ciência precisa de liberdade para inovar, mas também de confiança para planear.

Num contexto em que Portugal procura afirmar-se como um país inovador e competitivo, talvez o maior desafio não seja apenas definir novas políticas científicas, mas garantir que quem faz ciência conhece o rumo e consegue construir o futuro com base nele.

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