Há livros que despertam curiosidade pelo tema, outros pelo autor, e alguns pelo título — aquele que nos fica a ecoar antes mesmo de abrirmos a primeira página. Sobre a Ganância, o Amor e Outros Materiais de Construção, de Francisco Keil do Amaral, pertence claramente a esta última categoria. O título sugere desde logo uma tensão interessante: entre o material e o imaterial, entre aquilo que constrói fisicamente o mundo e aquilo que, de forma mais invisível, molda as nossas ações e decisões.
A simples associação entre conceitos como ganância e amor com “materiais de construção” levanta questões que vão muito além da arquitetura ou do urbanismo. Que forças estão, afinal, na base daquilo que construímos? Que valores orientam a forma como ocupamos o território, desenhamos cidades ou organizamos a vida coletiva? E até que ponto aquilo que edificamos reflete aquilo que somos — ou aquilo que nos tornámos?
A expectativa em torno desta obra nasce precisamente dessa promessa de cruzamento entre disciplinas e olhares. Francisco Keil do Amaral, figura incontornável da arquitetura portuguesa, é conhecido não apenas pelo seu trabalho projetual, mas também pela sua capacidade crítica e pela forma como pensava a relação entre espaço, sociedade e cultura. Ler este livro é, por isso, antecipar um mergulho numa reflexão onde a construção não é apenas técnica, mas também ética e profundamente humana.
Num tempo em que o território é frequentemente moldado por lógicas de mercado, onde a pressão económica muitas vezes se sobrepõe ao interesse coletivo, revisitar ideias que cruzam ganância e construção parece particularmente relevante. Mas, por outro lado, a presença do amor no título abre espaço a uma outra possibilidade: a de pensar o ato de construir como um gesto de cuidado, de responsabilidade e de ligação — às pessoas, aos lugares e ao futuro.
Antes mesmo da leitura, este livro impõe-se como um convite à reflexão. Um convite a questionar não só os edifícios que habitamos, mas também os princípios que lhes dão origem. Porque, no fundo, cada rua, cada casa, cada paisagem construída é resultado de escolhas — e essas escolhas são sempre feitas com “materiais” que vão muito além do betão ou da pedra.
Fica, assim, a vontade de o ler não apenas como um exercício intelectual, mas como uma oportunidade de repensar a forma como construímos o mundo à nossa volta — e o papel que cada um de nós tem nesse processo.
