Entre Avaliações e Incertezas: o futuro dos centros de investigação em Portugal

by Susana Lucas
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Nos últimos meses, muitos centros de investigação em Portugal têm acompanhado com atenção – e alguma apreensão – o processo de avaliação conduzido pela antiga Fundação para a Ciência e a Tecnologia (FCT). Os resultados preliminares trouxeram uma surpresa pouco animadora para muitos: de forma geral, as classificações atribuídas parecem ter sido revistas em baixa em relação ao ciclo anterior.

Naturalmente, a avaliação científica é um instrumento essencial para garantir qualidade, rigor e evolução do sistema científico. No entanto, quando se observa uma tendência generalizada de redução de pontuações, surgem inevitavelmente algumas questões: estaremos perante uma redefinição dos critérios de exigência? Ou haverá uma mudança mais profunda na forma como o sistema de investigação está a ser reorganizado?

Estas perguntas tornam-se ainda mais pertinentes num momento de transformação institucional. A recente criação de uma nova agência que resulta da integração da FCT com a ANI (Agência Nacional de Inovação) sugere que poderemos estar perante um redesenho mais amplo das políticas de ciência, tecnologia e inovação em Portugal.

Contudo, para já, persistem muitas incertezas.

Uma das principais prende-se com o processo de reclamações submetidas por diversos centros de investigação após a divulgação das avaliações. Ainda não é claro quando serão comunicados os resultados dessas reavaliações, nem se o processo incluirá recomendações concretas de melhoria que possam ajudar as unidades a evoluir de forma estruturada.

Seria desejável que assim fosse. A avaliação científica ganha muito quando não se limita a classificar, mas também orienta.

Outra questão que começa a surgir nas discussões dentro das instituições prende-se com os modelos organizativos dos centros. Será que estruturas mais distribuídas — como núcleos ou polos em diferentes instituições — poderão ser vistas como uma vantagem, por promoverem colaboração e massa crítica? Ou, pelo contrário, tenderá a privilegiar-se uma maior concentração institucional?

Ao mesmo tempo, surge uma reflexão mais estratégica: qual será o modelo desejado para o sistema científico nacional nos próximos anos?

Num contexto em que se discute também a possibilidade de os institutos politécnicos passarem a universidades, poderá vir a ganhar importância a existência de centros de investigação suficientemente robustos para sustentar programas doutorais. Se assim for, estaremos talvez a caminhar para um sistema com menos centros, mas com maior dimensão e capacidade científica.

Mas, para já, tudo isto permanece no domínio das hipóteses.

Num sistema científico saudável, a avaliação deve ser simultaneamente exigente, transparente e orientadora. Mais do que um momento de classificação, deveria ser também um momento de reflexão coletiva sobre o futuro da investigação no país.

Enquanto aguardamos clarificações — sobre as reclamações, sobre os novos critérios e sobre o papel da nova agência — permanece a expectativa de que este processo possa contribuir para fortalecer, e não apenas classificar, o ecossistema científico português.

Porque, no final, mais importante do que as pontuações é a capacidade de construir um sistema de investigação sólido, colaborativo e com impacto real na sociedade.

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