Ao longo da minha atividade como docente de Engenharia Civil tenho vindo a refletir sobre uma questão que considero cada vez mais pertinente: estaremos a formar os futuros engenheiros para resolver os problemas do passado ou para enfrentar os desafios do futuro?
Durante décadas, a formação em engenharia centrou-se no desenvolvimento de competências técnicas essenciais para projetar, construir e gerir infraestruturas. Essas competências continuam a ser fundamentais. Continuamos a precisar de profissionais capazes de dimensionar estruturas, conceber sistemas hidráulicos, gerir obras ou garantir a segurança das construções.
No entanto, o contexto em que esses profissionais irão exercer a sua atividade mudou profundamente.
Hoje, um engenheiro civil pode ser chamado a analisar dados provenientes de sensores instalados em infraestruturas, utilizar inteligência artificial para apoiar decisões de manutenção, trabalhar com gémeos digitais, avaliar impactos das alterações climáticas ou colaborar com especialistas de áreas tão distintas como a saúde, a informática, a sociologia ou a economia.
Os desafios tornaram-se mais complexos e interligados. Já não basta conhecer uma especialidade de forma isolada. É necessário compreender sistemas, antecipar riscos e trabalhar em equipas multidisciplinares.
Talvez por isso o conhecimento técnico, sendo indispensável, já não seja suficiente. Competências como a capacidade de adaptação, o pensamento crítico, a comunicação, a criatividade e a aprendizagem contínua assumem uma importância crescente.
A velocidade com que a tecnologia evolui também nos obriga a uma reflexão. Muitas das ferramentas utilizadas pelos estudantes quando terminarem os seus cursos poderão ainda nem existir quando iniciam a sua formação. Assim, mais importante do que ensinar uma ferramenta específica é desenvolver a capacidade de aprender novas ferramentas ao longo da vida.
Enquanto instituições de ensino superior, temos a responsabilidade de preparar os estudantes para uma profissão em constante transformação. Mas talvez a nossa missão seja ainda mais ambiciosa: prepará-los para resolver problemas que hoje ainda nem conseguimos antecipar totalmente.
A Engenharia Civil continuará a construir edifícios, pontes, estradas e infraestruturas. Mas também será chamada a contribuir para cidades mais resilientes, territórios mais sustentáveis, comunidades mais inclusivas e uma melhor qualidade de vida para todos.
Talvez a pergunta não seja se devemos mudar a forma como ensinamos. A verdadeira questão poderá ser se estamos a mudar com a rapidez necessária para acompanhar os desafios do futuro.
