Muitas vezes, quando pensamos no trabalho de um cientista ou investigador, imaginamos alguém profundamente mergulhado na sua área de especialidade — rodeado de dados, laboratórios, ensaios ou modelos teóricos. E embora isso seja verdade, a realidade é que fazer boa ciência hoje exige muito mais do que conhecimento técnico ou científico.
Ao longo do meu percurso, tenho sentido cada vez mais a necessidade de desenvolver competências complementares, que não são ensinadas nos manuais ou nas cadeiras tradicionais dos cursos científicos, mas que são absolutamente essenciais para ter impacto real no ecossistema de investigação:
- Saber comunicar ciência, seja para pares, financiadores, empresas ou para o público em geral.
- Ter ferramentas para identificar e construir consórcios eficazes, muitas vezes internacionais, interdisciplinares e com diferentes culturas organizacionais.
- Dominar a arte de escrever uma candidatura competitiva, com clareza, estratégia e alinhamento com prioridades de programas de financiamento.
- Desenvolver competências de gestão de projetos, de liderança colaborativa e de disseminação estratégica dos resultados.
Estes aspetos não são “extras”. São cada vez mais condições para que a ciência aconteça.
E se eu, com alguma experiência, sinto essa necessidade crescente, imagino o desafio que enfrentam os estudantes de mestrado e doutoramento, que estão a dar os primeiros passos no mundo da investigação. Muitos deles são excelentes tecnicamente, mas encontram-se perdidos quando têm de escrever um resumo para uma conferência, montar uma proposta de projeto ou explicar o seu trabalho de forma clara a alguém de fora da área.
É por isso que acredito firmemente que a formação contínua dos investigadores, em áreas como comunicação, gestão, financiamento, colaboração e ética, deve deixar de ser vista como acessória. É um investimento direto na qualidade, na visibilidade e na relevância da ciência que produzimos.
Hoje, a ciência “não existe” se não for bem comunicada. Um artigo excecional que ninguém lê, um projeto transformador que nunca encontra parceiros, uma ideia promissora que não consegue financiamento — são oportunidades perdidas, não por falta de mérito, mas por falta de preparação para navegar este lado mais estratégico da carreira científica.
Urge criar (e valorizar) espaços de formação e partilha nestas áreas. Porque fazer ciência de qualidade é, também, saber torná-la visível, compreensível e útil para quem está fora do laboratório — e dentro da sociedade.
