Li recentemente uma notícia que referia que a procura por engenheiros continua a crescer a um ritmo superior à capacidade de formar novos profissionais. Confesso que não fiquei surpreendida. Enquanto engenheira civil e docente do ensino superior, esta é uma realidade que observo há vários anos, tanto dentro das salas de aula como nas conversas com empresas do setor.
Vivemos um momento particularmente desafiante. Nunca se falou tanto de inteligência artificial, digitalização, eficiência energética, reabilitação, economia circular, cidades inteligentes ou adaptação às alterações climáticas. Curiosamente, todas estas áreas têm um denominador comum: precisam de engenharia. Precisam de pessoas capazes de transformar conhecimento em soluções concretas para responder aos desafios da sociedade.
Na área da construção esta necessidade é ainda mais evidente. Temos pela frente um enorme volume de investimento em habitação, infraestruturas, reabilitação do edificado e adaptação climática. Mas quem vai projetar, executar, fiscalizar e gerir estas transformações?
Enquanto docente, sinto que a missão já não passa apenas por transmitir conhecimento técnico. É também nossa responsabilidade mostrar aos estudantes que ser engenheiro é muito mais do que dominar cálculos ou normas técnicas. É desenvolver pensamento crítico, capacidade de resolver problemas complexos, trabalhar em equipa, comunicar, inovar e compreender o impacto que cada decisão pode ter na vida das pessoas.
Muitas vezes converso com estudantes que chegam ao curso com algumas dúvidas sobre o futuro profissional. Curiosamente, são esses mesmos estudantes que, poucos anos depois, me procuram porque já estão integrados em empresas ou receberam propostas de trabalho ainda antes de concluírem a formação. O mercado reconhece cada vez mais o valor destes profissionais.
Contudo, não basta aumentar o número de diplomados. Precisamos de formar melhores engenheiros, preparados para um contexto em constante mudança, onde as competências técnicas convivem com competências digitais, ambientais e humanas. A inteligência artificial será uma ferramenta poderosa, mas continuará a ser o engenheiro quem toma decisões, interpreta resultados, gere riscos e assume responsabilidades.
Talvez o maior desafio não seja a escassez de engenheiros. O verdadeiro desafio é conseguirmos despertar mais jovens para uma profissão extraordinária, que continua a construir muito mais do que edifícios, pontes ou infraestruturas. A engenharia continua, acima de tudo, a construir o futuro.
E isso começa, todos os dias, dentro de uma sala de aula.
