Estou há cerca de seis anos a escrever um livro. Dito assim, parece muito tempo — e é! Poderia já o ter terminado? Provavelmente sim. Mas hoje percebo que, se o tivesse terminado há três ou quatro anos, não seria certamente o mesmo livro que espero conseguir fechar ainda este ano.
Porque, enquanto escrevemos, também nós vamos mudando.
Ao longo destes seis anos surgiram novas experiências profissionais, novos projetos, novas leituras, novas perguntas e, sobretudo, novas formas de olhar para a construção. Algumas ideias que inicialmente me pareciam fundamentais foram ganhando outras dimensões. Outras, que nem sequer estavam previstas, tornaram-se essenciais.
E entretanto surgiu uma ferramenta que veio alterar profundamente a forma como podemos trabalhar: a Inteligência Artificial.
No meu caso, em especial o ChatGPT tem sido uma ferramenta muito interessante neste processo. Não para escrever o livro por mim — porque quero que o livro continue a ter a minha experiência, as minhas dúvidas, a minha forma de pensar e de ensinar —, mas para me ajudar a rever, questionar, organizar e visualizar melhor as ideias.
Tem sido particularmente útil para criar esquemas, experimentar diferentes formas de estruturar um conceito, identificar ligações que talvez não fossem imediatamente evidentes ou simplesmente provocar novas ideias. É quase como ter disponível um interlocutor com quem podemos testar continuamente o nosso raciocínio.
E isso também me fez pensar sobre a própria evolução da escrita técnica e científica.
Hoje temos ferramentas que não existiam quando comecei este livro. Seria estranho ignorá-las. Tal como utilizamos programas de cálculo, de desenho, de modelação ou de gestão de referências, também podemos utilizar a IA como uma ferramenta de apoio ao pensamento — desde que saibamos o que queremos dizer, sejamos críticos relativamente ao que recebemos e mantenhamos a responsabilidade sobre aquilo que assinamos.
Talvez estes seis anos não tenham sido, afinal, um atraso.
Foram também parte da construção do livro.
Porque um livro sobre construção sustentável, saudável e centrada nas pessoas também deve conseguir incorporar aquilo que vamos aprendendo pelo caminho. E talvez seja precisamente essa maturação que lhe permita ser mais próximo daquilo que sempre pretendi: não um livro com todas as respostas, mas um livro que ajude a fazer melhores perguntas.
Espero fechá-lo ainda este ano.
E, olhando para trás, começo a achar que talvez tenha precisado mesmo destes seis anos para escrever o livro que queria escrever — mesmo quando ainda não sabia exatamente qual seria.
