Nos últimos meses tenho estado envolvida na construção de uma candidatura europeia dedicada ao futuro do ambiente construído. À medida que o projeto vai ganhando forma, há uma convicção que se torna cada vez mais forte: se queremos colocar verdadeiramente as pessoas no centro, não podemos continuar a olhar para os desafios apenas através de uma única área do conhecimento.
Durante muitos anos, a construção foi vista sobretudo como um desafio técnico. Estruturas, materiais, energia, instalações, custos ou planeamento eram os principais temas de discussão. Continuam a ser fundamentais, mas hoje sabemos que já não são suficientes.
Quando falamos de um ambiente construído mais humano, estamos também a falar de saúde, bem-estar, comportamento, inclusão, educação, cultura, economia, políticas públicas, digitalização, inteligência artificial, sustentabilidade e participação das comunidades.
Nenhuma destas áreas, isoladamente, consegue responder aos desafios que enfrentamos.
É precisamente por isso que considero tão estimulante construir consórcios internacionais. Não procuramos parceiros que pensem exatamente como nós. Procuramos pessoas que tragam perspetivas diferentes, experiências complementares e conhecimentos que nos obriguem a questionar aquilo que damos como adquirido.
Na candidatura que estamos a desenvolver, cada nova especialidade que integra a equipa altera positivamente a forma como olhamos para o problema. Um investigador das ciências sociais coloca questões que um engenheiro dificilmente colocaria. Um especialista em educação identifica necessidades que podem passar despercebidas a quem trabalha na inovação tecnológica. Um decisor político acrescenta uma visão sobre implementação que um investigador pode não considerar. E a indústria lembra-nos constantemente que as melhores ideias são aquelas que conseguem ser aplicadas na prática.
É desta diversidade que nasce a verdadeira inovação.
Paradoxalmente, quanto mais complexos são os desafios, menos sentido faz procurar equipas compostas por pessoas com o mesmo perfil. O conhecimento especializado continua a ser essencial, mas é a capacidade de integrar diferentes saberes que permite encontrar soluções mais completas, mais equilibradas e, sobretudo, mais centradas nas pessoas.
Talvez o maior desafio da investigação atual não seja apenas produzir mais conhecimento.
Seja aprender a ligar conhecimentos.
Porque o futuro do ambiente construído não será definido apenas pela engenharia, pela arquitetura, pela tecnologia ou pelas ciências sociais.
Será construído por todos aqueles que conseguirem trabalhar em conjunto, respeitando as diferenças e reconhecendo que a melhor solução raramente nasce de uma única disciplina.
Humanizar o ambiente construído começa, afinal, por humanizar a forma como fazemos ciência: colaborando, ouvindo diferentes perspetivas e construindo equipas onde a diversidade de competências deixa de ser um desafio para passar a ser a maior força do projeto.
