Inteligência Artificial no Ensino Superior: ignorar não é opção

by Susana Lucas
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A discussão sobre a utilização da Inteligência Artificial (IA) no ensino superior está cada vez mais presente. Recentemente, o ministro do Ensino afirmou que a IA não pode ser ignorada — e concordo plenamente. Ainda assim, existem vozes que defendem a sua limitação ou até a retirada completa do contexto académico, por receio do impacto que poderá ter na aprendizagem, na avaliação e na integridade académica.

Este debate não é novo. Na verdade, já o vivemos antes.

Quando a internet começou a tornar-se acessível, instalou-se um verdadeiro pânico. Falava-se da “perda de controlo da informação”, do acesso facilitado a conteúdos pouco fiáveis e da ameaça ao papel tradicional do professor. Mais tarde, com o aparecimento dos motores de busca, surgiram receios semelhantes: “os alunos vão deixar de pensar”, “já ninguém vai memorizar nada”, “basta pesquisar no Google”.

Nada disso acabou por acontecer da forma catastrófica que se previa.

A realidade é que a internet e os motores de busca não destruíram o ensino — transformaram-no. Obrigar-nos a decorar informação perdeu relevância, enquanto ganharam importância competências como análise crítica, interpretação, síntese e capacidade de aplicar conhecimento. Evoluímos na forma como usamos e potenciamos a informação.

A Inteligência Artificial insere-se exatamente nessa linha evolutiva.

A IA é uma ferramenta. Poderosa, sim, mas ainda assim uma ferramenta. Tal como um motor de busca, um livro ou uma calculadora. O problema não está na tecnologia em si, mas na forma como é utilizada. Proibir a IA no ensino superior é ignorar a realidade do mundo em que os estudantes já vivem — e em que irão trabalhar.

Em vez de a afastar, faz mais sentido integrá-la de forma consciente e responsável. Ensinar os alunos a usar IA para apoiar a investigação, estruturar ideias, testar hipóteses ou melhorar a escrita, ao mesmo tempo que se reforçam critérios de avaliação que valorizem o pensamento próprio, a originalidade e a compreensão profunda dos temas.

O verdadeiro desafio não é impedir o uso da IA, mas repensar modelos de ensino e avaliação que já estavam desajustados antes dela existir. Avaliar apenas a reprodução de informação faz cada vez menos sentido num mundo onde a informação está sempre disponível.

Ignorar a IA não vai travar o seu avanço. Pelo contrário, pode deixar o ensino superior ainda mais distante da realidade profissional e social. Tal como aconteceu com a internet, quem aprender a utilizá-la de forma crítica e ética estará mais bem preparado para o futuro.

A história já nos mostrou que o medo da inovação raramente é um bom conselheiro. A adaptação, essa sim, é essencial.

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