Mais doutoramentos: uma excelente notícia… mas também uma responsabilidade

by Susana Lucas
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Nas últimas semanas tenho visto várias notícias sobre a abertura de novos cursos de doutoramento em institutos politécnicos portugueses.

Confesso que cada uma dessas notícias me deixa genuinamente satisfeita.

Durante muitos anos, os politécnicos demonstraram capacidade para produzir investigação de qualidade, captar financiamento competitivo, estabelecer redes internacionais e formar mestres altamente qualificados. A possibilidade de atribuírem o grau de doutor representa, por isso, um passo natural na evolução do sistema de ensino superior português.

Mas, ao mesmo tempo que sinto entusiasmo, surge também uma preocupação.

Será que caminhamos para uma oferta de doutoramentos suficientemente diferenciada?

Ou estaremos a correr o risco de criar muitos programas semelhantes, competindo pelos mesmos estudantes, pelos mesmos orientadores e pelos mesmos recursos?

Há poucos dias tive conhecimento de uma iniciativa que considerei particularmente interessante: um doutoramento desenvolvido em conjunto por várias faculdades da mesma universidade. Em vez de partir das fronteiras tradicionais das áreas científicas, procurava reunir diferentes competências para responder a desafios complexos.

Parece-me um excelente exemplo da direção que poderemos seguir.

Os grandes problemas que enfrentamos atualmente — alterações climáticas, transição energética, digitalização, envelhecimento da população, gestão sustentável dos recursos ou inteligência artificial — dificilmente podem ser resolvidos por uma única disciplina.

Talvez por isso faça cada vez mais sentido pensar em doutoramentos construídos em torno de missões, desafios ou problemas concretos da sociedade, reunindo investigadores de diferentes áreas do conhecimento.

Esta abordagem não elimina os doutoramentos disciplinares, que continuam a ser essenciais para o aprofundamento científico. Mas pode complementar o sistema, oferecendo percursos onde a interdisciplinaridade deixa de ser apenas uma palavra utilizada nos projetos e passa a fazer parte da própria formação dos investigadores.

Os institutos politécnicos têm aqui uma oportunidade única.

Em vez de procurarem replicar modelos existentes, podem afirmar-se através de programas inovadores, fortemente ligados aos territórios, às empresas, às instituições públicas e aos desafios reais da sociedade.

Acredito sinceramente que este é um momento histórico para o ensino superior português.

Espero que todos estes novos doutoramentos tenham sucesso.

Mas espero, acima de tudo, que cada um consiga encontrar a sua identidade própria, acrescentando valor ao sistema científico nacional e formando investigadores preparados não apenas para produzir conhecimento, mas também para transformar esse conhecimento em soluções com impacto.

Porque talvez a verdadeira diferença entre dois doutoramentos não esteja apenas no nome do curso.

Esteja na capacidade de responder às perguntas que o futuro ainda nos está a colocar.

O que achas disto?

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