Não fazer nada potencia a criatividade

by Susana Lucas
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Há dias ouvi um cantor dizer algo que ficou a ecoar mais tempo do que seria expectável. Não era particularmente complexo nem especialmente original — mas, por alguma razão, fez todo o sentido. Dizia ele que é precisamente quando não está a fazer nada, quando sai das rotinas, que a criatividade aparece.

E quanto mais penso nisso, mais me parece que há aqui uma verdade desconfortável.

Vivemos num tempo profundamente estruturado em torno da produtividade. Dias cheios, agendas organizadas, listas de tarefas que nunca acabam. Mesmo quando achamos que estamos a parar, muitas vezes estamos apenas a mudar de tipo de ocupação. O vazio tornou-se raro — e, talvez por isso, um pouco inquietante.

Mas a criatividade não parece gostar muito de agendas.

Ela não surge quando a chamamos, nem responde bem à pressão de “temos de ter uma ideia agora”. Pelo contrário, aparece muitas vezes nos momentos menos produtivos: num passeio sem objetivo, numa viagem, num intervalo, num instante de aborrecimento que não tentamos preencher imediatamente com um ecrã.

Talvez porque criar implica espaço. E espaço não é apenas tempo livre — é tempo não estruturado.

Quando estamos imersos em rotinas, o pensamento tende a seguir caminhos já conhecidos. Resolvemos problemas, tomamos decisões, reagimos ao que é urgente. Mas raramente nos afastamos o suficiente para ver as coisas de outra forma. A rotina é eficiente, mas também é previsível.

E a criatividade precisa precisamente do contrário: de alguma imprevisibilidade, de ligações improváveis, de tempo para que ideias aparentemente desconexas se encontrem.

O mais curioso é que, muitas vezes, sentimos culpa nesses momentos. Como se não fazer nada fosse, de alguma forma, um desperdício. Como se o valor estivesse sempre associado à ação visível, mensurável, imediata.

Mas talvez haja aqui um erro de perceção.

Não fazer nada não é necessariamente ausência de trabalho — pode ser outra forma de trabalhar. Uma forma menos controlada, menos linear, mas ainda assim essencial. É nesse espaço que o pensamento se reorganiza, que as ideias amadurecem sem pressão, que surgem intuições que não conseguiriam emergir num contexto totalmente estruturado.

Claro que isto não significa romantizar a ausência de rotina. Sem disciplina, dificilmente se concretiza o que quer que seja. Mas talvez o equilíbrio esteja errado. Talvez tenhamos otimizado demasiado para a execução e deixado pouco espaço para a exploração.

O comentário daquele cantor — simples, quase casual — acabou por expor isso. Não como uma teoria, mas como uma experiência vivida. Quem cria, seja na música, na ciência ou em qualquer outra área, sabe que as melhores ideias raramente aparecem quando estamos a tentar forçá-las.

Aparecem quando abrimos espaço para que aconteçam.

E isso levanta uma questão incómoda:
num mundo onde valorizamos tanto estar ocupados, estamos realmente a criar condições para sermos criativos?

Talvez a resposta passe por algo contraintuitivo: fazer menos, de vez em quando. Não como fuga, mas como estratégia. Não como falta de produtividade, mas como investimento em algo que não se mede facilmente — mas que, no fim, faz toda a diferença.

Porque, afinal, pode ser precisamente quando parece que não estamos a fazer nada… que estamos a pensar melhor.

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