Não Me Considero Cientista. Considero-me uma Pessoa de Ciência

by Susana Lucas
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Ao longo da minha vida académica realizei dois doutoramentos. Em ambos procurei contribuir com conhecimento novo, desenvolver soluções inovadoras e responder a desafios científicos concretos. Foi uma etapa exigente, mas extremamente enriquecedora.

No entanto, se hoje me perguntassem como me defino profissionalmente, provavelmente responderia de uma forma diferente.

Não diria que sou cientista.

Diria que sou uma pessoa de ciência.

À primeira vista pode parecer apenas uma diferença de palavras, mas para mim existe uma diferença profunda de significado.

Continuo apaixonada pela investigação. Continuo a acreditar que a ciência é um dos maiores motores de desenvolvimento da sociedade. Mas aquilo que mais me motiva atualmente não é trabalhar isoladamente numa linha de investigação muito específica. O que verdadeiramente me entusiasma é ajudar a criar as condições para que a ciência aconteça.

Gosto de reunir pessoas com competências diferentes em torno de um objetivo comum.

Gosto de imaginar projetos antes mesmo de existirem.

Gosto de identificar oportunidades de financiamento, construir consórcios nacionais e internacionais, encontrar parceiros que se complementam e desenhar equipas onde cada elemento acrescenta valor.

Gosto de transformar uma ideia numa candidatura sólida, definir objetivos, estruturar metodologias, planear atividades, construir orçamentos realistas e pensar na melhor estratégia para maximizar o impacto científico e social dos resultados.

Depois, quando um projeto é aprovado, surge outro desafio que também me fascina: coordenar equipas, acompanhar a execução, gerir recursos, garantir a qualidade dos resultados, comunicar com os parceiros e assegurar que aquilo que foi prometido se transforma efetivamente em conhecimento, inovação e benefício para a sociedade.

E, no final, há ainda a satisfação de olhar para trás, avaliar o percurso, elaborar os relatórios finais e perceber que uma ideia que começou numa folha em branco conseguiu mobilizar pessoas, instituições e conhecimento.

Talvez a minha investigação hoje aconteça menos ao microscópio ou através de uma equação e mais através da construção de ecossistemas de colaboração.

Acredito que a ciência precisa de excelentes investigadores. Mas também precisa de pessoas capazes de ligar disciplinas, aproximar instituições, construir confiança, gerir equipas e transformar boas ideias em projetos concretos.

Porque fazer ciência não é apenas produzir conhecimento.

É criar as condições para que esse conhecimento possa nascer, crescer, ser partilhado e gerar impacto.

Talvez seja por isso que me revejo cada vez mais na expressão Pessoa de Ciência.

Uma pessoa que continua profundamente ligada à investigação, mas cuja principal motivação é ajudar outras pessoas a fazer ciência em conjunto, mostrando que as maiores descobertas raramente são fruto de um único investigador, mas sim do trabalho colaborativo de equipas que partilham uma visão comum.

No fundo, mais do que produzir ciência, gosto de criar as condições para que ela aconteça.

O que achas disto?

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