Novas universidades em Portugal — novas ou transformadas?

by Susana Lucas
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O Governo português anunciou recentemente que irão existir duas novas universidades no país. A notícia gerou entusiasmo, surpresa e também alguma confusão.

Mas a questão que me surge é simples: estamos perante novas universidades ou perante a transformação de dois institutos politécnicos em universidades?

Pelo que tudo indica, trata-se da conversão de dois politécnicos que já vinham, há algum tempo, a consolidar o seu percurso científico e académico.

E, sinceramente, para quem acompanha o setor, isto não é propriamente uma surpresa.

UMA EVOLUÇÃO QUE JÁ ESTAVA EM CURSO

A possibilidade de alguns institutos politécnicos passarem a universidades já vinha sendo discutida há anos, sobretudo após alterações legislativas que passaram a permitir a atribuição do grau de doutor.

Ora, quando uma instituição demonstra capacidade científica, desenvolve investigação estruturada, cria centros de investigação reconhecidos e oferece ciclos de estudos de doutoramento, a distinção tradicional entre “politécnico” e “universidade” começa naturalmente a esbater-se.

No caso do Instituto Politécnico de Leiria, por exemplo, já há vários meses se via publicidade na autoestrada a referir-se à instituição como universidade politécnica. Esse posicionamento público não surge por acaso — reflete uma estratégia, uma ambição e, sobretudo, um caminho já percorrido.

A QUESTÃO NÃO É APENAS O NOME

Mais importante do que a designação é perceber o que sustenta essa mudança.

Historicamente, o subsistema politécnico esteve associado a uma formação mais prática e profissionalizante, enquanto o universitário tinha uma vocação mais teórica e científica. Contudo, essa divisão tornou-se progressivamente menos rígida.

Hoje, muitos politécnicos:

  • Desenvolvem investigação aplicada e fundamental
  • Têm projetos financiados a nível nacional e europeu
  • Oferecem mestrados consolidados
  • Criam redes internacionais
  • Demonstram capacidade para ciclos de doutoramento

Se a exigência científica está assegurada, a mudança de estatuto pode ser vista como um reconhecimento formal de uma realidade já existente.

REFORÇO DO SISTEMA OU RECONFIGURAÇÃO SIMBÓLICA?

Há também uma dimensão estratégica nesta decisão.

Transformar politécnicos em universidades pode:

  • Reforçar a atratividade internacional
  • Aumentar competitividade na captação de estudantes
  • Valorizar territórios fora dos grandes centros
  • Consolidar a investigação regional

Mas é legítimo perguntar: estamos a expandir o sistema ou apenas a reconfigurá-lo?

Não se trata de criar instituições de raiz, com novas infraestruturas ou novos ecossistemas académicos. Trata-se de reconhecer maturidade institucional.

O impacto real dependerá menos do título e mais:

  • Do investimento em investigação
  • Da estabilidade do corpo docente
  • Da qualidade científica produzida
  • Da ligação ao tecido empresarial e social

UM SINAL DE MATURIDADE DO ENSINO SUPERIOR?

Se esta transformação for sustentada por critérios rigorosos — e não apenas por uma decisão política simbólica — pode representar um sinal positivo: o de que o sistema de ensino superior português está a evoluir.

O reconhecimento da capacidade científica dos politécnicos pode contribuir para ultrapassar uma divisão histórica que, em muitos casos, já não refletia a realidade.

Contudo, o verdadeiro desafio começa agora.

Porque mudar o nome é relativamente simples.
Manter e elevar padrões de qualidade científica é o que realmente importa.

 

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