Recentemente li um editorial da revista científica Science que me chamou particularmente a atenção. Uma das frases mais marcantes defendia que “o futuro da comunicação científica não é um artigo como este”. A reflexão surge num contexto em que a forma como as pessoas consomem informação está a mudar rapidamente, ao ponto de revistas científicas de referência procurarem novos canais de comunicação. Um dos exemplos referidos é a presença da Nature na plataforma TikTok.
À primeira vista, a ideia pode parecer estranha. Afinal, a ciência sempre foi comunicada através de artigos, livros, conferências e relatórios. Mas a verdade é que estes formatos foram desenvolvidos principalmente para comunicar entre cientistas, não necessariamente para comunicar com a sociedade.
Hoje, uma parte significativa da população obtém informação através de vídeos curtos, podcasts, redes sociais, newsletters ou plataformas digitais. Independentemente de gostarmos ou não dessa realidade, é aí que as pessoas estão. E se a ciência pretende continuar a influenciar decisões individuais e coletivas, tem de encontrar formas de chegar a esses espaços.
Isto não significa substituir os artigos científicos. Continuaremos a precisar deles para garantir rigor, validação por pares, transparência metodológica e construção cumulativa do conhecimento. O artigo científico continuará a ser a base da ciência. O que está a mudar é a forma como os seus resultados são apresentados e discutidos fora da comunidade académica.
Enquanto investigadora e docente, reconheço que esta transformação representa simultaneamente uma oportunidade e um desafio. Uma oportunidade porque nunca foi tão fácil chegar diretamente a milhares de pessoas interessadas em aprender. Um desafio porque comunicar ciência de forma simples não significa simplificar em excesso nem sacrificar o rigor científico.
Talvez durante muito tempo tenhamos assumido que publicar um artigo era suficiente para cumprir a missão de disseminar conhecimento. Hoje percebemos que isso já não basta. Produzir conhecimento continua a ser essencial, mas garantir que esse conhecimento chega à sociedade é igualmente importante.
Aliás, esta reflexão faz-me recordar uma questão que tenho discutido frequentemente com colegas da área da ciência e da inovação. Quantos projetos de investigação produzem resultados extraordinários que acabam por ficar limitados a relatórios, artigos ou apresentações em congressos? Quantas descobertas poderiam gerar maior impacto social se fossem comunicadas através de formatos mais acessíveis?
A comunicação científica do futuro provavelmente será mais diversificada. Continuaremos a ter artigos científicos, mas também vídeos, infografias, experiências imersivas, podcasts, inteligência artificial, realidade aumentada e formatos que ainda nem imaginamos. O objetivo não será substituir a ciência tradicional, mas ampliar a sua capacidade de chegar às pessoas.
Talvez a grande questão não seja se a ciência deve estar no TikTok, no YouTube ou noutra plataforma qualquer. A verdadeira questão é se estamos dispostos a comunicar a ciência onde as pessoas efetivamente procuram informação.
Porque produzir conhecimento é fundamental. Mas uma sociedade só beneficia verdadeiramente da ciência quando consegue compreendê-la, utilizá-la e confiar nela.
