Quando pensamos em ciência, é normal imaginar logo um cientista de bata branca, tubos de ensaio na mão e descobertas revolucionárias. Mas a verdade é que, por trás de cada investigação, existe uma equipa muito mais vasta. Para além dos cientistas, há técnicos, gestores, comunicadores, analistas… tudo gente ligada à ciência.
E é aqui que a confusão nasce: se trabalham todos em ciência, não são todos cientistas? Nem sempre.
O chamado pessoal de ciência é aquele conjunto de profissionais que dá suporte ao trabalho dos cientistas ou que garante que tudo funciona. Em Portugal, encontramos estes profissionais em instituições como:
- Instituto Gulbenkian de Ciência (IGC) – técnicos de laboratório, bioinformáticos e gestores de ciência;
- Fundação Champalimaud – técnicos de imagem, gestores de projetos e comunicadores de ciência;
- Instituto Nacional de Saúde Doutor Ricardo Jorge (INSA) – técnicos de análises, bibliotecários científicos e especialistas em dados;
- Universidades (Lisboa, Porto, Coimbra…) com assistentes de investigação, gestores de projetos e comunicadores científicos.
Sem estas pessoas, muito do trabalho dos cientistas simplesmente não acontecia.
O mais curioso é que o pessoal de ciência não está apenas nos laboratórios. Está em todo o lado, inclusive nas nossas tradições e cultura.
Os saberes populares — como a produção de vinho, queijo, azeite ou ervas medicinais — têm por detrás processos científicos transmitidos de geração em geração. Hoje, técnicos e cientistas estudam e melhoram essas práticas, mantendo vivas as tradições ao mesmo tempo que as tornam mais seguras e eficientes.
Exemplos disso em Portugal:
- Enólogos e técnicos de viticultura que unem ciência e tradição para melhorar o vinho do Douro e do Alentejo;
- Investigadores e técnicos em gastronomia que preservam receitas tradicionais enquanto inovam (como na doçaria conventual);
- Biólogos marinhos e técnicos de conservação que estudam práticas de pesca artesanal para proteger espécies e ecossistemas.
Isto mostra que ciência não é um “mundo à parte”. Está presente no que comemos, vestimos, usamos e até nas festas populares — só muda a forma como o conhecimento é organizado e aplicado.
Já o cientista é quem, no fundo, concebe as perguntas, planeia experiências e analisa resultados para criar novo conhecimento. Em Portugal, podemos encontrá-los:
- Nos centros de investigação universitários, como o Ciências ULisboa ou o i3S – Instituto de Investigação e Inovação em Saúde (Porto);
- Em laboratórios associados como o ITQB NOVA, o LIP – Laboratório de Instrumentação e Física Experimental de Partículas ou o INESC TEC;
- A trabalhar como investigadores principais, pós-doutorados ou doutorandos em áreas tão diversas como biologia, física, ciências sociais ou engenharia.
Mas aqui está o truque: muitos cientistas também fazem tarefas “de pessoal de ciência” (analisar dados, preparar relatórios, gerir equipas), e muitas pessoas do pessoal de ciência acabam por ter formação avançada e publicar artigos.
Perceber estas diferenças não é para pôr rótulos. É para valorizar todos os que fazem a ciência andar para a frente. Sem técnicos, gestores e comunicadores, os cientistas ficariam atolados em tarefas e não avançavam tanto. E sem cientistas, não havia descobertas para apoiar nem comunicar.
E ao mesmo tempo, reconhecer que a ciência vive nas tradições e cultura portuguesas mostra como o conhecimento científico não é um “extra”: faz parte do nosso dia a dia e da nossa identidade.
No fundo, pessoal de ciência e cientistas são duas faces da mesma moeda. Trabalham lado a lado, partilham paixões e objetivos. As diferenças existem, mas os pontos em comum são tantos que a confusão é natural. E ainda bem: significa que a ciência é, cada vez mais, um esforço coletivo — e que os saberes, antigos e modernos, se cruzam para melhorar a nossa vida e preservar aquilo que nos torna únicos.
