O algoritmo das redes sociais conhece-nos cada vez melhor. Nos últimos tempos tem-me apresentado inúmeros vídeos sobre projetos de reabilitação: desde pequenas casas vendidas por 1 euro em Itália até magníficos châteaux franceses que podem ser adquiridos por cerca de 100 mil euros. Confesso que vejo muitos desses exemplos com curiosidade e admiro a capacidade de transformar edifícios esquecidos em espaços cheios de vida.
No entanto, sempre que termino um desses vídeos, a minha conclusão é praticamente a mesma: não seria esse o desafio que escolheria para mim.
Respeito profundamente a importância da reabilitação. Em muitos casos, é mesmo a solução mais sustentável, preservando património, reduzindo o consumo de recursos e mantendo viva a identidade dos lugares. Mas, pessoalmente, aquilo que mais me entusiasma é começar com um terreno vazio.
Gosto de chegar a um local e, antes de pensar no edifício, tentar compreender o próprio terreno. Observar a topografia, a orientação solar, os ventos predominantes, a vegetação existente, as vistas, a relação com a paisagem e até aquilo que o terreno parece querer “contar”. Cada condicionante transforma-se numa oportunidade de projeto.
Talvez seja a engenheira em mim que fala, mas sempre vi as limitações como um ponto de partida para a criatividade. Um declive deixa de ser um problema e pode tornar-se uma solução arquitetónica. Uma orientação menos favorável obriga-nos a pensar melhor na eficiência energética. Uma árvore existente pode passar de obstáculo a elemento central de todo o conceito.
É precisamente esse processo de imaginar algo que ainda não existe que mais me motiva. Não sinto que estou apenas a desenhar um edifício, mas sim a procurar a melhor forma de integrar uma construção naquele lugar específico, respeitando as suas características e potenciando aquilo que o torna único.
Talvez por isso nunca tenha sentido uma verdadeira vontade de comprar uma casa antiga para recuperar. Não porque não reconheça o enorme valor da reabilitação, mas porque a minha motivação está noutro tipo de desafio: descobrir o potencial de um terreno e transformar uma folha em branco num espaço pensado para as pessoas, para o ambiente e para o futuro.
Cada terreno é diferente. Cada um tem as suas limitações e as suas potencialidades. E é precisamente essa singularidade que torna cada novo projeto uma oportunidade para aprender, criar e inovar.
No fundo, mais do que construir edifícios, gosto de construir possibilidades.
