PortugalBIM: agora é que vai… ou continuaremos a falar do futuro?

by Susana Lucas
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Em 2016 fiz a formação base de BIM na Ordem dos Engenheiros. Na altura, o BIM parecia já ser “o próximo passo inevitável” para o setor da construção. Passaram-se dez anos. A pergunta impõe-se: será desta?

A publicação da Resolução do Conselho de Ministros n.º 89/2026, que aprova a Estratégia Nacional para a Implementação da Metodologia BIM — o chamado PortugalBIM — parece ser finalmente um sinal político claro de que Portugal quer acelerar a transformação digital do setor AECO (Arquitetura, Engenharia, Construção e Operação).

Mas entre aprovar uma estratégia e mudar efetivamente a prática do setor vai uma distância considerável.

O BIM não é apenas desenhar em 3D de forma mais elegante. É uma mudança profunda na forma como projetamos, construímos, operamos e até desmontamos ativos construídos. É trabalhar com informação estruturada, colaborativa e interoperável ao longo de todo o ciclo de vida do edifício ou infraestrutura.

O que prevê afinal esta estratégia?

A estratégia assenta em quatro pilares fundamentais:

1. Políticas públicas e governação
Aqui está talvez o elemento mais decisivo. Sem exigência pública, a adoção tende a ser lenta. O Estado pretende assumir um papel impulsionador, nomeadamente através da contratação pública e de projetos âncora.

2. Normalização e interoperabilidade
Um dos grandes entraves históricos do BIM em Portugal foi cada entidade trabalhar “à sua maneira”. A estratégia aponta para alinhamento com normas internacionais (como a ISO 19650), definição de requisitos comuns e maior consistência técnica.

3. Tecnologia e plataformas
Prevê-se a criação de ferramentas de suporte, plataformas de conhecimento, bibliotecas digitais e repositórios de modelos e objetos BIM.

4. Capacitação e formação
Este ponto é absolutamente crítico. Não basta ter software. É preciso pessoas preparadas — projetistas, gestores de projeto, empreiteiros, fiscalização, donos de obra e administração pública.

Em termos de calendário?

A implementação está prevista para seis anos, o que demonstra que o Governo reconhece que esta não é uma mudança instantânea.

Podemos interpretar a evolução em fases:

Fase 1 — Estruturação (curto prazo)

  • Criação da governação da estratégia (liderança IMPIC)
  • Produção de guias e referenciais
  • Definição de requisitos técnicos comuns
  • Arranque da capacitação

Fase 2 — Pilotos e adoção progressiva (médio prazo)

  • Projetos públicos demonstradores
  • Integração gradual em municípios e entidades públicas
  • Teste de processos colaborativos reais

Fase 3 — Massificação (longo prazo)

  • BIM como prática corrente
  • Maior exigência em contratação pública
  • Integração com operação, manutenção e gestão de ativos

O que pode realmente mudar?

Se for bem executado:

✔ Menos erros e incompatibilidades em projeto
✔ Menos retrabalho em obra
✔ Melhor controlo de custos e prazos
✔ Melhor planeamento da manutenção
✔ Mais transparência na contratação pública
✔ Melhor medição da sustentabilidade e circularidade
✔ Dados mais úteis para gestão futura dos ativos

Para quem trabalha em engenharia, isto pode significar uma mudança muito concreta no perfil profissional exigido.

Mas os desafios continuam enormes.

Porque sejamos honestos:

  • Muitas PME ainda não têm maturidade digital;
  • Parte do setor continua muito orientado para práticas tradicionais;
  • Há resistência cultural à colaboração e partilha de informação;
  • A contratação pública nem sempre privilegia inovação;
  • Formação avulsa não significa transformação organizacional.

E aqui está a verdadeira questão.

Será desta?

A diferença parece estar no facto de existir agora uma estratégia nacional formal, com enquadramento político claro.

Mas a verdadeira mudança só acontecerá quando BIM deixar de ser um “tema de conferência” e passar a ser uma exigência normal no quotidiano dos projetos.

Dez anos depois da minha primeira formação, continuo a achar que o potencial é enorme.

A dúvida já não é tecnológica.

É sobretudo cultural.

Porque no setor da construção, mudar ferramentas é relativamente fácil.

Mudar mentalidades é sempre a obra mais complexa.

O que achas disto?

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