Projetar para desmontar: pensar hoje no fim de vida da construção

by Susana Lucas
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Quando projetamos um edifício, pensamos habitualmente na sua construção, utilização, manutenção e durabilidade. Mas será que pensamos verdadeiramente na forma como poderá ser desmontado no final da sua vida útil?

O projeto para desmontagem ainda não é uma prática muito recorrente em Portugal. Talvez porque continuemos a encarar o fim de vida dos edifícios sobretudo como um processo de demolição e porque não existam, com grande visibilidade, muitas operações de desconstrução ou desmontagem seletiva. Contudo, esta abordagem deveria ser cada vez mais considerada.

Desmontar não é o mesmo que demolir. Na demolição, os materiais são frequentemente destruídos, misturados e transformados em resíduos, dificultando a sua posterior valorização. Na desmontagem, procura-se separar cuidadosamente os diferentes elementos construtivos, preservando o seu valor e permitindo a respetiva reutilização, reparação, transformação ou reciclagem.

Para que isso seja possível, é necessário pensar no assunto logo durante o projeto. Como são feitas as ligações entre os elementos? É possível separar a estrutura, os revestimentos, as instalações e os equipamentos? Os materiais estão colados de forma irreversível ou unidos através de soluções que permitem a sua remoção? Existe informação sobre a origem, a composição e o potencial de reutilização de cada componente?

Projetar para desmontar implica privilegiar sistemas modulares, ligações mecânicas acessíveis, materiais compatíveis e componentes que possam ser substituídos sem destruir tudo o que os rodeia. Implica também documentar o edifício, através de modelos digitais, passaportes de materiais ou manuais de desmontagem, para que, no futuro, seja possível saber o que existe e como recuperar cada elemento.

Esta forma de pensar aproxima a construção dos princípios da economia circular. Um edifício deixa de ser visto como um produto definitivo e passa a ser entendido como um conjunto temporário de materiais e componentes que poderão ter várias vidas. Uma porta, uma viga, uma fachada ou uma instalação não têm necessariamente de terminar quando o edifício deixa de cumprir a sua função inicial.

O projeto para desmontagem também facilita a manutenção, a adaptação dos espaços e a substituição de componentes ao longo do tempo. Por isso, não diz respeito apenas ao fim de vida: pode aumentar a flexibilidade, prolongar a utilização do edifício e reduzir custos e impactes ambientais durante toda a sua existência.

Talvez ainda não tenhamos muitas grandes obras de desmontagem em Portugal, mas isso não significa que não devamos começar a preparar os edifícios que estamos hoje a projetar. As decisões tomadas agora determinarão se, daqui a algumas décadas, teremos um conjunto de resíduos para eliminar ou um verdadeiro banco de materiais para voltar a utilizar.

Projetar para desmontar é reconhecer que o fim de um edifício não tem de representar o fim dos seus materiais. Pode ser apenas o início de um novo ciclo.

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