Na passada sexta-feira tive a oportunidade de apresentar, em conjunto com a colega Helena Simão, do Instituto Politécnico da Guarda, uma reflexão sobre um tema que considero cada vez mais relevante: a qualidade na ciência. A apresentação decorreu no âmbito do RIQUAL e permitiu-nos partilhar um trabalho que procurou sistematizar práticas, desafios e possíveis caminhos para reforçar a integridade, a relevância e o impacto da investigação científica.
O mais interessante não foi apenas a apresentação em si, mas sobretudo o debate que se seguiu.
Houve uma concordância praticamente generalizada em torno da ideia de que a qualidade científica não pode ser reduzida ao número de artigos publicados, ao fator de impacto ou ao índice H. A comunidade científica reconhece cada vez mais a importância de aspetos como a integridade, a transparência, a reprodutibilidade, a ciência aberta e o impacto societal da investigação.
Contudo, quando a conversa passou do diagnóstico para as soluções, surgiram as dúvidas.
Como podemos avaliar a qualidade sem criar novos processos burocráticos? Como equilibrar métricas quantitativas com avaliações qualitativas? Como recompensar a colaboração, a ciência aberta e o impacto social quando os sistemas de avaliação continuam fortemente centrados na produtividade científica tradicional? E, talvez a questão mais desafiante de todas: quem deve liderar esta mudança?
Foi precisamente neste ponto que comecei a refletir sobre o papel que a Scientia Nexus pode desempenhar.
Enquanto associação de pessoas de ciência, para uma ciência sem fronteiras, talvez possamos assumir um papel de facilitador e de espaço de experimentação. Criar fóruns de discussão, promover boas práticas, aproximar investigadores de diferentes áreas científicas, desenvolver referenciais simples de qualidade e contribuir para uma cultura científica mais colaborativa e orientada para o impacto.
A mudança dos sistemas de avaliação dependerá certamente de instituições, financiadores e decisores políticos. Mas a mudança cultural começa muitas vezes em comunidades de prática que se disponibilizam para testar novas abordagens e promover o debate.
Saí desta sessão com uma convicção reforçada: existe consenso sobre a importância da qualidade na ciência. O verdadeiro desafio está agora em transformar esse consenso em ação.
Porque talvez a pergunta mais importante já não seja quantos artigos publicamos, mas sim que valor conseguimos criar para a sociedade através do conhecimento que produzimos.
