Quando a cidade nos mostra o futuro

by Susana Lucas
1 visualizações 2 minutes read
A+A-
Reset

Ontem estive no Portugal Smart Cities Summit e saí de lá com a sensação de que, apesar de muitas vezes falarmos do futuro como algo distante, ele já está a ser desenhado — peça a peça, conversa a conversa, protótipo a protótipo.

Entre muitos expositores, houve três momentos que particularmente me marcaram.

O primeiro foi um sistema de carregamento elétrico alimentado por energias renováveis, conjugando fotovoltaico e eólica. À primeira vista, pareceu-me uma solução extremamente interessante para a mobilidade sustentável. Contudo, ao conversar com os responsáveis, percebi rapidamente os desafios da escalabilidade. O sistema estava pensado para bicicletas e trotinetes elétricas, e quando questionei a possibilidade de aplicação a automóveis elétricos, a resposta trouxe uma boa dose de realidade: para alimentar um carro, a componente eólica teria de atingir dimensões muito superiores — cerca de 2 metros de altura e 1,5 metros de diâmetro — e, além da questão técnica, existiria ainda toda a complexidade burocrática associada à instalação. Muitas vezes, a inovação não esbarra na falta de ideias, mas na difícil travessia entre o conceito e a implementação prática.

O segundo momento foi junto de um protótipo de carro autónomo. Confesso que este tipo de tecnologia continua a despertar em mim uma curiosidade misturada com prudência. Disse ao investigador com quem conversei, entre humor e expectativa, que esperava que quando tiver 80 anos já pudesse contar com um destes para me levar onde precisasse. A resposta foi imediata e convicta: “Muito antes disso, seguramente.” Fiquei a pensar como a perceção do tempo muda quando falamos de inovação. Aquilo que hoje parece quase ficção científica poderá tornar-se banal numa questão de poucos anos.

O terceiro destaque levou-me a um tema particularmente sensível para quem conhece a realidade do território português: os incêndios florestais. Ver um sistema capaz de detetar focos iniciais de incêndio através de câmaras elevadas, drones e inteligência artificial é perceber como a tecnologia pode, efetivamente, salvar território, património e vidas. Claro que nenhuma tecnologia substitui a prevenção, a gestão do território ou a intervenção humana, mas pode ser um aliado decisivo quando cada minuto conta.

No final, saí com a certeza de que valeu mesmo a pena ir.

Porque mais do que ver tecnologia, estes eventos permitem-nos conversar com quem a está a desenvolver, perceber limitações, testar ideias e, acima de tudo, alimentar reflexão. As cidades inteligentes não se constroem apenas com sensores, algoritmos ou veículos autónomos. Constroem-se com diálogo entre tecnologia, pessoas e necessidades reais.

E talvez seja esse o maior valor destes encontros: lembrar-nos que o futuro não acontece sozinho — constrói-se.

O que achas disto?

Partilha a tua reação ou deixa um comentário!