Recentemente li uma notícia sobre uma escola pública brasileira que foi distinguida entre as melhores do mundo. O que mais me impressionou não foi o prémio, mas a transformação que conseguiu alcançar. Há cerca de dez anos, esta escola estava em risco de encerrar por falta de alunos. Hoje recebe cerca de dez vezes mais estudantes e tornou-se uma referência educativa.
O mais interessante é perceber que esta mudança não começou com um novo edifício, mais tecnologia ou uma reforma curricular. Começou por algo muito mais simples e, ao mesmo tempo, muito mais profundo: os professores decidiram conhecer melhor os seus alunos e as suas famílias.
Em vez de esperarem que os problemas chegassem à sala de aula, foram ao encontro da realidade de cada comunidade. Visitaram famílias, compreenderam os desafios sociais, económicos e culturais que influenciavam a aprendizagem e passaram a olhar para cada aluno de forma mais completa. Ensinar deixou de ser apenas transmitir conhecimentos e passou também por compreender o contexto em que esses conhecimentos seriam recebidos.
Esta notícia fez-me refletir sobre a realidade portuguesa.
Temos excelentes professores, escolas dedicadas e profissionais profundamente empenhados. No entanto, muitas vezes a comunicação entre escola e famílias acaba por ser excessivamente burocratizada. Na maioria das situações, o contacto faz-se quase exclusivamente através do diretor de turma. Se um encarregado de educação pretender falar diretamente com um professor de uma disciplina específica, esse contacto nem sempre é simples ou célere.
Naturalmente, existem razões organizacionais que justificam este modelo. Os docentes têm uma elevada carga letiva e inúmeras responsabilidades para além das aulas. Mas talvez valha a pena questionarmo-nos se a proximidade entre professores, alunos e famílias poderia ser reforçada.
A educação acontece muito para além da sala de aula. Conhecer a realidade de um aluno não significa invadir a sua privacidade; significa compreender melhor os fatores que podem potenciar ou dificultar a sua aprendizagem. Muitas vezes, uma conversa, uma visita ou um contacto mais próximo permite perceber aquilo que nenhum teste consegue revelar.
Esta experiência brasileira recorda-nos que o sucesso educativo nem sempre depende de grandes investimentos. Por vezes, começa simplesmente por criar relações de confiança.
Talvez uma das maiores inovações na educação continue a ser aquela que coloca as pessoas no centro. Porque antes de formar bons alunos, é preciso conhecer as pessoas que eles são.
