Quando a força da água nos obriga a repensar onde construímos

by Susana Lucas
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As imagens das recentes inundações na fronteira entre o Tibete e o Nepal são verdadeiramente impressionantes. Num vale estreito, vimos uma enorme massa de água, lama, gelo e rocha avançar com uma força quase impossível de imaginar. Edifícios, pontes, estradas e outras infraestruturas desmoronaram-se ou foram arrastados como se fossem feitos de papel.

As informações disponíveis indicam que esta inundação repentina terá sido desencadeada pelo colapso de uma massa glaciar nos Himalaias. A enorme diferença de altitude e a configuração estreita do vale contribuíram para concentrar e acelerar o fluxo destrutivo. Trata-se de uma situação excecional, perante a qual mesmo construções aparentemente resistentes dificilmente conseguiriam permanecer intactas. (Reuters)

Mas, para além da dimensão humana desta tragédia, que deve estar sempre em primeiro lugar, estas imagens obrigam-nos a refletir sobre a forma como ocupamos o território, particularmente nas proximidades dos rios.

Durante muito tempo, as populações instalaram-se junto aos cursos de água porque estes garantiam água, alimento, mobilidade e condições favoráveis ao desenvolvimento das atividades humanas. Contudo, os rios não são elementos estáticos. Têm leitos de cheia, alteram os seus percursos e necessitam de espaço para acomodar os grandes volumes de água que podem surgir em situações extremas.

Construir junto a um rio não pode, por isso, depender apenas da disponibilidade do terreno ou da paisagem que proporciona. É necessário conhecer a história hidrológica do local, estudar a topografia, considerar diferentes cenários de cheia e compreender como a água se comportará quando ultrapassar os limites habituais. Num vale estreito, esta análise torna-se ainda mais importante, porque a água encontra menos espaço para se espalhar e pode adquirir uma velocidade e uma capacidade destrutiva muito superiores.

Não podemos afirmar que todas as consequências possam ser evitadas. Há acontecimentos de tal dimensão que ultrapassam muitas das soluções técnicas conhecidas. Mas podemos reduzir a exposição das pessoas e das construções através de um melhor ordenamento do território, de zonas de proteção junto aos rios, de percursos seguros de evacuação, de sistemas de monitorização e alerta e de infraestruturas projetadas considerando os riscos reais do lugar.

Estas imagens mostram-nos que não basta construir edifícios mais resistentes. É também necessário saber onde construir, onde não construir e que espaço devemos devolver à natureza.

A água não esquece o seu caminho. E, perante a sua força, cabe-nos aprender a respeitar o território antes de o ocupar.

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