Há alguns anos, se me perguntassem em que centro de investigação imaginava desenvolver a minha atividade científica, provavelmente teria dado uma resposta muito diferente da que daria hoje.
A investigação tem esta capacidade extraordinária de nos desafiar a sair da nossa zona de conforto e a descobrir novas áreas onde o nosso conhecimento pode fazer a diferença.
Recentemente, no âmbito da preparação da candidatura ao Horizonte Europa que estou a coordenar, surgiu um convite inesperado do colega Luís Coelho: apresentar a minha candidatura como investigadora colaboradora do MARE.
A primeira reação foi de surpresa.
O MARE é reconhecido sobretudo pela investigação ligada ao mar, aos ecossistemas aquáticos e aos recursos naturais. À primeira vista, poderia parecer um contexto distante da minha formação em Engenharia Civil e da investigação que tenho desenvolvido.
Mas bastou refletir um pouco para perceber que talvez não seja assim tão distante.
Grande parte da minha investigação tem incidido sobre sustentabilidade, eficiência energética, gestão sustentável dos recursos, qualidade dos ambientes construídos, digitalização das infraestruturas, inteligência artificial e gémeos digitais. Temas que hoje se cruzam naturalmente com desafios como a gestão da água, a adaptação às alterações climáticas, a eficiência na utilização dos recursos e a resiliência dos territórios.
Foi precisamente esse enquadramento que procurei transmitir no texto de candidatura. Expliquei que o meu interesse passa por desenvolver investigação interdisciplinar que contribua para a utilização sustentável dos recursos naturais, a descarbonização, a adaptação às alterações climáticas e a resiliência das infraestruturas, articulando conhecimento entre diferentes domínios científicos.
Ao escrever esse pequeno texto, com apenas mil caracteres, dei por mim a fazer um exercício de reflexão sobre o meu próprio percurso.
Percebi que, ao longo dos últimos anos, a minha investigação deixou de estar centrada apenas na construção. Hoje procura responder a problemas mais abrangentes, onde edifícios, infraestruturas, água, energia, ambiente e território fazem parte do mesmo sistema.
Talvez seja precisamente este o caminho da ciência contemporânea.
Os grandes desafios dificilmente cabem dentro das fronteiras de uma única disciplina ou de um único centro de investigação. Exigem equipas multidisciplinares, diferentes perspetivas e uma enorme capacidade de colaboração.
Independentemente do resultado desta candidatura, fico muito satisfeita por sentir que colegas de outras áreas reconhecem que posso contribuir para novos desafios científicos.
No fundo, talvez esse seja um dos maiores privilégios da investigação: continuar a aprender, a construir novas pontes e a descobrir que, muitas vezes, estamos muito mais próximos de outras áreas do conhecimento do que imaginávamos.
