No passado dia 28 de maio tive oportunidade de participar na sessão online de apresentação do relatório europeu ESPON dedicado ao desenvolvimento urbano e, posteriormente, de analisar com maior detalhe o documento final. Confesso que fiquei com uma reflexão que ultrapassa largamente a discussão técnica sobre financiamento europeu.
Falamos muitas vezes de cidades inteligentes, sustentáveis, resilientes e inclusivas. Mas talvez a verdadeira questão seja outra: porque conseguem algumas cidades transformar melhor oportunidades em impacto real?
O relatório mostra algo particularmente relevante: o sucesso territorial não depende apenas de boas ideias ou de acesso a financiamento. Depende da capacidade institucional, da qualidade da governação multinível, da visão estratégica e da existência de equipas preparadas para pensar de forma integrada.
E aqui talvez resida um dos maiores desafios para Portugal.
Temos talento, conhecimento técnico e necessidade de transformação territorial. Mas estaremos suficientemente preparados para aproveitar verdadeiramente as oportunidades disponíveis? Quantas organizações trabalham com visão de longo prazo e quantas vivem apenas em função do próximo aviso de financiamento?
Outro aspeto particularmente interessante é o reconhecimento crescente das cidades como motores reais da transformação europeia. Mobilidade, habitação, adaptação climática, energia, inclusão social, digitalização… tudo converge no território.
Mas financiamento, por si só, nunca foi sinónimo de transformação. O verdadeiro diferencial está nas pessoas, nas lideranças, nas redes de colaboração e na capacidade de articular conhecimento com ação.
Enquanto alguém ligado ao ensino superior, à investigação e à interface entre conhecimento e aplicação prática, não consigo deixar de pensar que muitos dos desafios urbanos atuais já não pertencem a uma única disciplina. A cidade do futuro exige engenharia, sim. Mas exige igualmente governação, ciência de dados, ambiente, saúde, comportamento humano e participação cidadã.
Talvez a inteligência urbana não esteja apenas na tecnologia que instalamos. Talvez esteja, sobretudo, na inteligência coletiva com que decidimos.
No final, as cidades que mais evoluirão poderão não ser as que tiverem mais financiamento disponível. Serão provavelmente aquelas que tiverem maior capacidade para transformar conhecimento em impacto.
