Quando o bonito não é funcional, confortável ou humanizado

by Susana Lucas
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Na semana passada, tive a oportunidade de conhecer o Parque Tecnológico de Óbidos, uma vez que o meu filho frequentou ali uma formação. Tratando-se de um espaço associado à tecnologia, à inovação e ao futuro, fui naturalmente observando o ambiente construído e a forma como este responde às necessidades de quem o utiliza.

Logo no primeiro dia, a experiência começou da pior forma: rebentei um pneu ao passar por lancis soltos colocados na via, que não consegui ver a tempo. Depois do incidente, dirigi-me à receção para alertar para a situação. Não pretendia qualquer ressarcimento pelo que me tinha acontecido, mas evitar que o mesmo se repetisse com outra pessoa ou que daí resultasse um acidente mais grave.

Foi-me explicado que aquela tinha sido a solução encontrada para impedir o estacionamento nessa zona. Contudo, colocar estruturas soltas na faixa de rodagem, sem sinalização ou visibilidade adequada, parece criar um novo risco em vez de resolver o problema inicial.

A partir desse momento, comecei a observar o parque com maior atenção. Apesar de existirem diferentes infraestruturas, incluindo postos de carregamento para veículos elétricos e ecopontos, não encontrei sinalização rodoviária horizontal ou vertical que organizasse devidamente a circulação, o estacionamento e a utilização desses espaços. Sugeri, por isso, que fosse instalada, pelo menos, sinalização que alertasse para os obstáculos existentes na via.

Também o edifício principal, com cerca de dez anos e distinguido com prémios de arquitetura, apresenta já algumas necessidades visíveis de manutenção, nomeadamente corrosão em estruturas metálicas. Foi-me ainda referido que, para limpar alguns dos vidros exteriores, é necessário contratar uma equipa com gruas, por não ter sido prevista outra forma de acesso. Este é um exemplo muito concreto de como as decisões tomadas durante o projeto condicionam toda a utilização, conservação e manutenção futura de um edifício.

Outro aspeto que me causou alguma estranheza foi a predominância do preto em várias zonas comuns, incluindo nos espaços de refeições e nas casas de banho. Não sei qual terá sido o conceito que esteve na origem dessa opção, mas permanecer num espaço quase totalmente preto é, no mínimo, desconfortável. A arquitetura não deve ser apenas observada; deve ser vivida. A cor, a luz, os materiais e a presença de elementos naturais influenciam a nossa perceção, o nosso bem-estar e até a vontade de permanecer num determinado local.

Nos espaços comuns interiores também senti a ausência de plantas ou de outros elementos que aproximassem as pessoas da natureza. No exterior, os arranjos paisagísticos pareciam necessitar de maior manutenção. Num parque tecnológico, onde se pretende estimular a criatividade, a colaboração e a inovação, seria importante que o próprio ambiente contribuísse para o conforto e bem-estar dos seus utilizadores.

Esta visita deixou-me uma reflexão que considero cada vez mais importante: um edifício pode ser visualmente marcante, receber prémios e ser reconhecido pela sua arquitetura, mas isso não significa necessariamente que seja funcional, confortável, seguro ou humanizado.

Projetar não é apenas criar uma imagem. É antecipar a utilização, a circulação, a manutenção, a limpeza, o envelhecimento dos materiais e, sobretudo, a experiência das pessoas. Porque a verdadeira qualidade da arquitetura não se mede apenas no dia da inauguração ou através de uma fotografia. Mede-se também dez anos depois, na forma como o edifício funciona, se conserva e continua a acolher quem o utiliza.

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