Quanto custa uma pessoa de ciência?

by Susana Lucas
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Nas candidaturas a projetos de investigação, uma parte significativa do trabalho consiste em estimar custos com recursos humanos. É necessário calcular pessoas-mês, aplicar custos médios, distribuir o esforço pelas diferentes tarefas e justificar os valores apresentados.

As tabelas são indispensáveis. Permitem comparar propostas, verificar a razoabilidade dos custos e demonstrar que os recursos solicitados são proporcionais ao trabalho previsto. No entanto, uma tabela nunca consegue representar plenamente o valor de uma pessoa de ciência.

O custo mensal de um investigador não traduz apenas as horas dedicadas a uma determinada tarefa. Por detrás desse valor estão anos de formação, experiência acumulada, conhecimento especializado, participação em projetos, capacidade de análise, criatividade e responsabilidade.

Também existem contributos que dificilmente aparecem numa folha de cálculo: a ideia que desbloqueia um problema, a experiência que permite antecipar um risco, a rede de contactos que facilita o acesso a stakeholders ou a capacidade de orientar alguém que está a iniciar o seu percurso científico.

Duas pessoas podem ter o mesmo custo mensal e oferecer contributos muito diferentes. Da mesma forma, investigadores com custos distintos podem ser igualmente necessários, porque possuem funções, níveis de experiência e competências complementares.

Esta reflexão também nos deve levar a pensar sobre o trabalho que permanece invisível. Preparar candidaturas, apoiar colegas, acompanhar estudantes, responder a parceiros, rever documentos ou construir novas linhas de investigação ocupa muito tempo, mas nem sempre aparece nas métricas tradicionais.

Justificar custos é essencial, sobretudo quando trabalhamos com financiamento público. O rigor orçamental protege os projetos e aumenta a confiança na utilização dos recursos. Contudo, não devemos confundir custo com valor.

O custo pode ser colocado numa célula de Excel. O valor manifesta-se na qualidade das decisões, nos resultados produzidos, nas pessoas formadas, nas organizações transformadas e no impacto que permanece depois de o projeto terminar.

Talvez a pergunta mais importante não seja apenas “quanto custa esta pessoa?”, mas também “que conhecimento, experiência e capacidade de transformação pode esta pessoa trazer ao projeto?”.

A ciência necessita de recursos, mas é feita por pessoas. Reconhecer o seu verdadeiro valor é também uma condição para desenvolver projetos mais responsáveis, inovadores e humanos.

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