As recentes declarações do ministro do Ensino Superior sobre o estado de degradação das residências universitárias voltaram a trazer o tema para o debate público. Fala-se de mau uso, de comportamentos dos estudantes e de uma alegada falta de cuidado com os espaços. No entanto, quem conhece minimamente estas infraestruturas — ou simplesmente as habita — sabe que a realidade é bem mais complexa.
Pelas residências universitárias que conheço e visitei, o problema central raramente está no uso intensivo. Está, antes, nas opções tomadas à partida: materiais pouco duráveis, acabamentos frágeis e uma quase total ausência de planos de manutenção ao longo do tempo.
Em muitos casos, as residências são pensadas para cumprir prazos e orçamentos apertados, recorrendo a soluções construtivas de curto prazo. Pavimentos que não resistem ao uso contínuo, revestimentos que se degradam rapidamente, mobiliário de fraca qualidade e sistemas técnicos que envelhecem mal. Tudo isto em edifícios destinados, por definição, a uma utilização intensiva e prolongada.
A degradação não acontece de um dia para o outro, nem resulta apenas de comportamentos individuais. É cumulativa. E torna-se inevitável quando não existe manutenção preventiva, apenas intervenções pontuais quando o problema já é impossível de ignorar. Esta lógica de “construir e esquecer” é comum nas residências universitárias, mas também em muitas outras instalações públicas.
Apontar o dedo aos utilizadores é uma solução fácil, mas incompleta. Qualquer edifício público — seja uma escola, um hospital ou uma residência universitária — deve ser projetado com a consciência de que será usado intensamente e por pessoas diferentes ao longo do tempo. Isso exige materiais adequados, soluções robustas e, sobretudo, um compromisso contínuo com a manutenção.
Se queremos residências universitárias dignas, seguras e duráveis, o debate não pode ficar pela superfície. É preciso discutir:
- critérios de projeto e construção,
- escolhas de materiais e acabamentos,
- modelos de gestão e manutenção,
- e o investimento necessário para garantir a longevidade das infraestruturas.
As residências universitárias não são um favor aos estudantes. São uma parte essencial da política pública de acesso ao ensino superior. Tratá-las como edifícios descartáveis é, no fundo, tratar o próprio ensino como algo provisório.
