Resíduos da construção: talvez devêssemos começar por lhes chamar recursos

by Susana Lucas
0 visualizações 2 minutes read
A+A-
Reset

Recentemente pediram-me uma reflexão sobre um tema que continua a ser central no setor da construção: os chamados resíduos de construção. E talvez a primeira questão deva começar precisamente pela forma como os designamos.

Quando falamos em “resíduos”, partimos logo do princípio de que estamos perante algo que deixou de ter valor e que terá como destino final o descarte. No entanto, muitos dos materiais que resultam de obras, demolições ou reabilitações continuam a ter potencial de reutilização ou valorização. Talvez por isso devêssemos começar por encará-los como recursos da construção, e não simplesmente como algo descartável.

Esta mudança de perspetiva implica também alterar a forma como pensamos os edifícios desde o início. O planeamento de uma construção deveria considerar não apenas a fase de utilização, mas também o fim de vida útil do edifício. Ainda não é habitual que os projetos integrem verdadeiramente essa visão de longo prazo — pensar como os materiais poderão ser desmontados, reutilizados ou reciclados no futuro.

Outro aspeto muitas vezes negligenciado é a manutenção. Quando não existe uma estratégia clara de manutenção ao longo da vida útil do edifício, as componentes construtivas acabam por se degradar mais rapidamente. O resultado é que muitas vezes saltamos diretamente da utilização para a reabilitação profunda ou até para a demolição, sem passar por uma fase intermédia que poderia prolongar significativamente a vida do edifício.

Tudo isto contribui para aumentar a quantidade de materiais que acabam por ser classificados como resíduos, quando poderiam ter tido um ciclo de vida mais longo ou um destino mais valorizado.

Existe ainda muito trabalho a fazer no setor da construção em Portugal. A mudança exige novas práticas de projeto, novos modelos de gestão de obra e também uma transformação cultural na forma como encaramos os materiais e os edifícios.

Espero que possamos olhar para exemplos internacionais inspiradores. No Reino Unido, por exemplo, muitos projetos atuais já têm de ser pensados com o objetivo de não deixar sair resíduos do lote da obra. Trata-se de uma abordagem exigente, mas que ao mesmo tempo representa uma enorme oportunidade para inovação no setor.

No fundo, o desafio é claro: passar de uma lógica de descarte para uma lógica de circularidade. E isso começa, muitas vezes, com algo aparentemente simples — mudar a forma como pensamos e nomeamos os materiais da construção.

O que achas disto?

Partilha a tua reação ou deixa um comentário!