Recentemente deparei-me com um programa doutoral da Universidade de Lisboa que me chamou particularmente a atenção: o Doutoramento em Estudos em Saúde Planetária, envolvendo um impressionante conjunto de 18 faculdades, existem outros programas de doutoramento em diversas faculdades mas este é o que vi com maior número de faculdades incluídas, além nos requisitos pode-se vir de qualquer área do conhecimento. Mais do que um novo curso, parece-me um verdadeiro sinal dos tempos.
Durante décadas, habituámo-nos a organizar o conhecimento em áreas muito bem delimitadas. Engenharia de um lado, saúde de outro, ambiente noutro, economia num espaço próprio, ciências sociais noutra dimensão. Esta estrutura fez sentido para aprofundar especializações, mas os desafios que hoje enfrentamos já não respeitam essas fronteiras.
As alterações climáticas não são apenas uma questão ambiental — impactam a saúde pública, a segurança alimentar, os sistemas energéticos, a gestão da água, a mobilidade, a economia e até a estabilidade social. Os incêndios florestais, as ondas de calor, a poluição atmosférica, a escassez hídrica ou mesmo a propagação de novas doenças demonstram, de forma clara, que os problemas globais exigem respostas integradas.
É precisamente aqui que o conceito de Saúde Planetária ganha relevância: reconhecer que a saúde humana está profundamente dependente da saúde dos ecossistemas e do equilíbrio do planeta.
Ver uma universidade estruturar um doutoramento que agrega 18 faculdades é, na minha perspetiva, um excelente exemplo de maturidade institucional. Significa assumir que nenhuma disciplina, isoladamente, conseguirá responder aos desafios complexos do presente e do futuro.
Enquanto engenheira, esta visão faz-me particular sentido. Muitas vezes, as soluções técnicas existem, mas a sua implementação depende de fatores sociais, políticos, económicos, comportamentais e até culturais. A inovação real raramente nasce de silos; nasce do cruzamento entre diferentes perspetivas.
Talvez este seja um dos maiores desafios do ensino superior contemporâneo: preparar profissionais que saibam colaborar para além da sua área de conforto, que compreendam sistemas complexos e que consigam dialogar com especialistas de diferentes campos.
Num mundo onde tudo está interligado, talvez a verdadeira especialização do futuro seja precisamente a capacidade de integrar conhecimento.
Se há algo que iniciativas como esta nos mostram, é que o futuro da ciência, da educação e da inovação será cada vez menos sobre fronteiras disciplinares e cada vez mais sobre pontes entre saberes.
