Nos últimos tempos tenho refletido sobre uma questão interessante: se fosse criado hoje um novo núcleo de investigação na área da Engenharia Civil, quais deveriam ser as suas áreas prioritárias de atuação?
A resposta não é tão simples quanto parece. Durante décadas, a investigação em Engenharia Civil esteve muito associada aos materiais, às estruturas, às vias de comunicação ou à hidráulica. Todas estas áreas continuam a ser fundamentais, mas os desafios atuais exigem uma visão mais ampla e integrada.
Talvez a primeira questão não seja o que investigar, mas sim o que podemos acrescentar ao conhecimento já existente. Um novo núcleo de investigação deve procurar complementar e reforçar as competências dos centros onde se integra, evitando duplicações e criando valor adicional para a comunidade científica e para a sociedade.
Hoje, a construção enfrenta desafios sem precedentes. As alterações climáticas obrigam-nos a repensar a resiliência das infraestruturas e dos territórios. A transformação digital está a alterar profundamente a forma como projetamos, construímos e gerimos os ativos. A escassez de recursos exige soluções mais sustentáveis e circulares. Ao mesmo tempo, a sociedade procura edifícios e espaços urbanos mais saudáveis, inclusivos e adaptados às necessidades das pessoas.
Neste contexto, áreas como a engenharia digital aplicada à construção, os gémeos digitais, a utilização de inteligência artificial no planeamento e manutenção de infraestruturas, a monitorização em tempo real de edifícios e obras, ou a integração de dados para apoio à decisão parecem assumir uma relevância crescente.
Por outro lado, a investigação não deve perder a ligação ao território. Temas como a adaptação às alterações climáticas, a gestão do risco, a segurança hídrica, a prevenção de incêndios, a reabilitação do património edificado ou a resiliência das infraestruturas críticas continuarão a ser essenciais para responder aos desafios das próximas décadas.
Uma dimensão que considero particularmente importante é a aproximação entre a academia e as empresas. Muitas das melhores oportunidades de investigação surgem da observação dos problemas reais encontrados em obra, na gestão de infraestruturas ou na operação dos serviços urbanos. A investigação aplicada tem precisamente a capacidade de transformar desafios concretos em conhecimento, inovação e soluções com impacto.
Mas talvez o elemento mais diferenciador de um futuro núcleo de investigação não esteja apenas na tecnologia ou nas infraestruturas. Poderá estar nas pessoas. A construção existe para servir as comunidades e melhorar a qualidade de vida. Por isso, temas relacionados com ambientes construídos centrados nas pessoas, saúde, conforto, segurança, acessibilidade e bem-estar poderão assumir uma importância crescente nos próximos anos.
No fundo, se hoje fosse criado um novo núcleo de investigação em Engenharia Civil, gostaria de acreditar que teria a capacidade de ligar ciência, tecnologia, território, empresas e pessoas. Porque os grandes desafios do futuro dificilmente serão resolvidos por uma única disciplina. Exigirão conhecimento técnico sólido, mas também uma forte capacidade de colaboração, inovação e visão integrada do mundo que estamos a construir.
