Se faltam engenheiros, o desafio começa muito antes da universidade

by Susana Lucas
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Recentemente li um artigo de uma empresa de recursos humanos cujo título me chamou imediatamente a atenção: “Procura por Engenheiros é maior do que a capacidade de formar talento. E a necessidade está a aumentar.”

Para quem trabalha diariamente no ensino superior e acompanha de perto o mercado de trabalho, esta afirmação dificilmente surpreende. O que talvez deva preocupar-nos é perceber que este desequilíbrio não parece ser conjuntural, mas sim estrutural.

A transformação digital, a transição energética, a adaptação às alterações climáticas, a modernização das infraestruturas, a industrialização da construção e a crescente incorporação de inteligência artificial estão a criar novos desafios que exigem cada vez mais engenheiros, e com competências muito diferentes das que eram necessárias há apenas uma década.

Ao mesmo tempo, o número de jovens que escolhe percursos nas áreas STEM não cresce ao mesmo ritmo. Em algumas especialidades, verifica-se até uma redução da procura, precisamente quando as empresas mais necessitam de profissionais qualificados.

Mas formar mais engenheiros não significa apenas aumentar o número de vagas no ensino superior.

O verdadeiro desafio começa muito antes, no ensino básico e secundário. É aí que se desperta a curiosidade pela ciência, pela matemática, pela tecnologia e pela resolução de problemas. É aí que os jovens começam a descobrir que a engenharia não é apenas cálculo ou fórmulas, mas uma profissão que melhora a vida das pessoas, cria soluções para problemas reais e contribui para construir um futuro mais sustentável.

Também o ensino superior tem uma responsabilidade acrescida. Precisamos de continuar a aproximar os estudantes das empresas, desenvolver projetos com problemas reais, reforçar as competências transversais e preparar profissionais capazes de aprender continuamente ao longo da carreira. A velocidade da mudança tecnológica exige que a formação inicial seja apenas o ponto de partida.

Por outro lado, as empresas têm igualmente um papel determinante. Valorizar os engenheiros passa por oferecer condições de desenvolvimento profissional, oportunidades de aprendizagem contínua e carreiras atrativas que permitam reter talento em Portugal.

A escassez de engenheiros não se resolve com uma única medida. Exige uma resposta articulada entre escolas, instituições de ensino superior, empresas, ordens profissionais e decisores públicos.

Porque, no final, formar engenheiros não é apenas preparar profissionais para o mercado de trabalho. É investir nas pessoas que irão projetar as cidades, desenvolver tecnologias, proteger o ambiente, inovar na indústria e encontrar soluções para muitos dos desafios que ainda nem conseguimos antecipar.

Talvez a verdadeira questão já não seja se precisamos de mais engenheiros. A questão é saber se estamos a fazer tudo o que está ao nosso alcance para despertar esse talento e ajudá-lo a crescer.

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