Nos últimos dias, grande parte da Europa voltou a enfrentar temperaturas excecionalmente elevadas. Curiosamente, alguns dos maiores desafios não se sentiram apenas nos países do sul, tradicionalmente associados ao calor, mas também no norte da Europa.
Durante décadas, países como a Suécia, a Noruega, a Finlândia, a Dinamarca ou partes da Alemanha, dos Países Baixos e do Reino Unido desenvolveram edifícios altamente eficientes para enfrentar o frio. Elevados níveis de isolamento térmico, caixilharias muito estanques e soluções construtivas concebidas para conservar o calor permitiram reduzir consumos energéticos e aumentar o conforto durante os longos invernos.
Mas a realidade climática está a mudar.
Quando as temperaturas exteriores ultrapassam, durante vários dias consecutivos, os 30 °C ou mesmo os 35 °C, muitos destes edifícios revelam uma limitação inesperada: conseguem manter o calor no inverno, mas têm dificuldade em dissipar o calor acumulado no verão. O resultado são espaços interiores desconfortáveis, muitas vezes sem sistemas de arrefecimento e sem estratégias passivas que permitam restabelecer rapidamente condições aceitáveis de conforto.
Esta situação leva-nos a uma questão importante: estaremos a projetar edifícios para o clima que existia ou para aquele que estamos a viver?
A eficiência energética continuará a ser um objetivo essencial, mas talvez seja altura de evoluirmos para uma visão mais abrangente da resiliência climática dos edifícios. Não basta reduzir as perdas de calor; é igualmente necessário limitar os ganhos térmicos excessivos, favorecer a ventilação natural quando as condições o permitem, incorporar sombreamentos eficazes, utilizar materiais adequados e conceber soluções que funcionem durante todo o ano.
Em vez de edifícios especializados apenas para um cenário climático, talvez devamos apostar em edifícios adaptativos, capazes de responder tanto aos dias de frio intenso e chuva persistente como às cada vez mais frequentes ondas de calor.
As alterações climáticas estão a desafiar muitos dos pressupostos que orientaram a construção nas últimas décadas. Talvez a verdadeira sustentabilidade já não passe apenas por construir edifícios energeticamente eficientes, mas por criar edifícios preparados para um clima em permanente transformação.
Porque, no futuro, o desafio poderá deixar de ser apenas aquecer as nossas casas no inverno. Poderá ser, cada vez mais, conseguir mantê-las habitáveis durante os extremos de calor que começam a tornar-se a nova normalidade.
