Transição verde em aceleração… mas o clima não espera

by Susana Lucas
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Nos últimos dias, várias notícias deram conta de um dado inquietante: o continente europeu, frequentemente apontado como líder na transição verde, já regista um aumento médio de temperatura na ordem dos 2,5ºC. Um número que, mais do que estatística, deve ser lido como um sinal claro de que o ritmo das mudanças climáticas continua a ultrapassar a capacidade de resposta das políticas e das sociedades.

Perante este cenário, surge uma questão quase instintiva: terá este aumento sido provocado pelos incêndios? A resposta não é simples — e, sobretudo, não é única.

Os incêndios florestais, que têm marcado de forma cada vez mais intensa os verões europeus, são simultaneamente causa e consequência das alterações climáticas. Por um lado, libertam enormes quantidades de dióxido de carbono para a atmosfera, contribuindo diretamente para o aquecimento global. Por outro, são alimentados por condições cada vez mais extremas: temperaturas elevadas, longos períodos de seca e ventos imprevisíveis. Ou seja, fazem parte de um ciclo que se retroalimenta.

Mas reduzir o aumento da temperatura média europeia apenas aos incêndios seria simplificar em demasia um problema estrutural. Este aumento resulta de uma combinação de fatores: emissões acumuladas ao longo de décadas, urbanização intensiva, alterações no uso do solo e até a própria localização geográfica da Europa, que a torna particularmente sensível ao aquecimento global — um fenómeno conhecido como “amplificação europeia”.

Há aqui uma aparente contradição que importa refletir: como pode o continente que mais investe na transição energética, na descarbonização e em políticas ambientais ambiciosas estar também entre os mais afetados pelo aumento das temperaturas? Talvez a resposta resida no desfasamento entre ação e efeito. As políticas implementadas hoje terão impacto sobretudo nas próximas décadas, enquanto os efeitos do passado continuam a manifestar-se no presente.

Esta realidade levanta um ponto crítico: a transição verde não pode ser apenas uma estratégia de mitigação — tem de ser, cada vez mais, uma estratégia de adaptação. Preparar cidades para ondas de calor, gerir florestas de forma mais resiliente, investir em sistemas de alerta e resposta rápida a incêndios, e repensar a forma como ocupamos o território são medidas tão urgentes quanto reduzir emissões.

No fundo, o que estas notícias nos dizem é que estamos num momento de transição, mas também de tensão. A Europa lidera, sim — mas lidera num contexto em que os efeitos já são visíveis e, em muitos casos, irreversíveis a curto prazo.

Talvez a verdadeira questão não seja se os incêndios explicam este aumento, mas sim se estamos preparados para viver num clima que já mudou — e que continuará a mudar.

 

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